Barranco e Larcomar

Nono dia. Quinta-feira, 05 de abril de 2012.

Tomamos o café da manhã no hotel e como já estávamos com a bagagem toda pronta ficamos esperando a van chegar. Nosso voo para Lima saía às 09:50h. Na véspera eu liguei para o motorista que havia nos trazido do aeroporto para o hotel quando chegamos em Cusco e ficou tudo acertado. Não sei porque ele não apareceu. Para não correr o risco de atraso, pedimos dois taxis para o pessoal da recepção. Rapidamente eles chegaram e nós seguimos para o aeroporto, eu a minhã mãe em um taxi e a Dani e os pais dela no outro.

No caminho eu fiquei observando a cidade e seu movimento. É sempre triste deixar um lugar que gostamos. Ainda mais quando não sabemos quando voltaremos. Mas a viagem tinha que continuar e ainda teríamos alguns dias em Lima para aproveitar. Os taxis nos deixaram em frente às zonas de embarque. Da região do Convento de Santo Domingo (Qorikancha), no centro histórico, até o aeroporto de Cusco a viagem não dura mais que 15 minutos (6 km). Cada taxi custou 6 Nuevos Soles (R$ 4,08), já previamente acertados antes de entrarmos, ainda na porta do hotel. Acabou saindo mais barato que os 20 Nuevos Soles (R$ 13,60) que pagaríamos para irmos todos junto na van.

O aeroporto estava movimentado. Engraçado que em 2009 eu tive a impressão de que o aeroporto de Cusco era mais tranquilo. Já nessa viagem de 2012, nas duas vezes que passamos por ele, estava tudo bem cheio. Pegamos uma pequena fila, fizemos o check-in sem problemas e nos encaminhamos para a sala de embarque, que também estava lotada. Não demorou e embarcamos rumo à Lima.

Como já contei aqui no blog, as passagens de ida e volta Lima-Cusco-Lima saíram por 406,18 Nuevos Soles (R$ 276,31), já com as taxas, para cada um de nós, um preço muito bom se comparado com o que as outras companhias estavam cobrando. Novamente não tenho nada o que me queixar da StarPerú. O voo foi pontual e tranquilo, as poltronas são confortáveis e espaçosas e o serviço de bordo também foi bom.

Lanche servido no voo

Lanche servido no voo

Chegamos em Lima pontualmente às 11:05h, pegamos as bagagens e saímos. Marco, o motorista que nos transportou nas primeiras vezes que passamos pelo aeroporto de Lima, já estava nos esperando no desembarque, conforme havíamos combinado dias atrás.

De volta a Lima

De volta a Lima

Em 40 minutos já estávamos no nosso apartamento em Miraflores. Novamente ficamos no Rentals In Miraflores Apartments, o mesmo apartamento que ficamos antes de ir à Cusco. Reservamos no site do Booking.com e pagamos por estas três últimas noites em Lima 950 Nuevos Soles (R$ 646), o que corresponde a R$ 43 por dia para cada um. Já falei sobre esse apartamento neste post. Recomendo.

A dona do apartamento estava nos esperando. Como já conhecíamos tudo, conversamos um pouco sobre como foram nossos primeiros dias em Lima e Cusco, combinamos que no check-out era só deixar as chaves com o porteiro, pagamos a estadia e pronto. Foi só o tempo de acomodar as coisas e já saímos para passear.

Metropolitano, o BRT de Lima

Metropolitano, o BRT de Lima

Dessa vez nosso plano era dar uma volta por Barranco, um distrito de Lima que fica a beira-mar. Assim como Miraflores, Barranco é um “município” autônomo, mas é integrado a Lima como se fosse um bairro. Pegamos o Metropolitano, o sistema de BRT de Lima, na estação que fica em frente ao apartamento, a 28 de Julio, e descemos apenas três estações depois, na estação Bulevar, que fica na Av. Francisco Bolognesi, a mais perto do centrinho de Barranco.

As ruas de Barranco

As ruas de Barranco

De uma antiga vila de pescadores, toda esta região se transformou em uma espécie de retiro para a alta sociedade limeña de fins do século XIX e início do XX, que ali construía seus casarões para passar o verão diante do mar. Com o tempo Barranco entrou em decadência e muitos casarões foram abandonados por longos períodos. Só nos últimos anos todo o entorno está sendo revalorizado.

Sem trânsito pesado, com muitas árvores e várias ruas só para pedestres, para mim Barranco chega a ser um lugar bucólico. Talvez por eu só ter visitado esta parte de Lima durante o dia, tanto em 2009 como em 2012, sempre tive a impressão de que essa é uma área tranquila, com cara de cidade do interior.

Atualmente Barranco é mais famoso pela vida noturna. Conhecido como o reduto boêmio de Lima, há uma grande aglomeração de bares, boates e restaurantes por lá, instalados nos antigos casarões agora revitalizados. A esta hora do dia os bares estavam fechados, mas muitos restaurantes já serviam o almoço.

Parque de Barranco

Parque de Barranco

Parque de Barranco

Parque de Barranco

Passeamos por várias ruelas e pela praça central em meio a pipoqueiros, sorveteiros e muitas crianças brincando. As tardes em Barranco são um programa bem familiar.

Seu Chico, dona Dóia, minha mãe Conceição e Dani em frente a Iglesia Santísima Cruz

Seu Chico, dona Dóia, minha mãe Conceição e Dani em frente a Iglesia Santísima Cruz

São dois os pontos mais famosos de Barranco, a antiga pracinha, chamada Parque de Barranco, e a vizinha Puente de los Suspiros.

Dani e a ladeira que leva à Puente de los Suspiros

Dani e a ladeira que leva à Puente de los Suspiros

A antiga Puente de los Suspiros cruza um caminho mais baixo que era utilizado pelos pescadores para chegar ao mar.

Puente de los Suspiros

Puente de los Suspiros

Do outro lado da ponte está La Ermita, a primeira igreja de Barranco, que parece estar abandonada.

La Ermita

La Ermita

Em 1882 esta igreja foi incendiada pelo exército chileno que invadiu Lima durante a Guerra do Pacífico (1879-1883). Aliás toda esta área de Barranco foi destruída à época. Depois tudo foi reconstruído mas, em 1940, um forte terremoto abalou novamente a La Ermita e parece que até hoje ela não foi totalmente reformada.

A caminho do mar por baixo da Puente de los Suspiros

A caminho do mar por baixo da Puente de los Suspiros

A caminho das praias de Barranco

A caminho das praias de Barranco

Apesar de ainda ser quinta-feira, Lima já estava em clima de feriado por causa da semana santa. Pela quantidade de gente passeando e também nas praias, e pela tranquilidade nas ruas (inclusive nos ônibus do Metropolitano, que estavam vazios), não tenho certeza, mas acho até que quinta-feira santa é feriado oficial em Lima.

Circuito de las Playas

Circuito de las Playas

Apesar das muitas opções, eu e a Dani já tínhamos escolhido onde almoçar mesmo antes de chegar a Barranco. Em 2009, quando estivemos lá pela primeira vez, descobrimos meio que por acaso o Rustica, um restaurante estilo buffet com uma variedade enorme de todo tipo de comida, inclusive comida típica peruana. Descendo pela ruela que passa por baixo da Puente de los Suspiros chegamos a uma passarela que atravessa a pista e termina ao lado do restaurante, que fica à beira-mar.

Restaurante Rustica

Restaurante Rustica

Além da comida ser deliciosa ainda temos a vantagem de poder escolher melhor o que queremos comer e é mais fácil acertar na escolha. Isso é bom principalmente quando se trata de comida típica.

Restaurante Rustica

Restaurante Rustica

Restaurante Rustica

Restaurante Rustica

O buffet tem o preço fixo de 60 Nuevos Soles (R$ 40,81) por pessoa e podemos comer à vontade. Abusamos dos ceviches, da comida criolla e dos frutos do mar. Tomamos mais uns refrigerantes e a conta acabou saindo por 360 Nuevos Soles (R$ 244,89).

Ceviche

Ceviche

Depois do almoço resolvemos dar uma passada na praia. Diferente das praias brasileiras, as daqui de Lima são de pedras e não de areia. Isso talvez explique porque Lima fica à beira do mar mas não parece uma cidade praiana. Muita gente vai à praia e fica de roupas normais, só contemplando, sem entrar na água.

Praia em Barranco

Praia em Barranco

Com o calor que fazia, resolvemos ao menos molhar os pés.

Praia em Barranco

Praia em Barranco

Praia em Barranco

Praia em Barranco

Minha mãe, Conceição, não teve uma boa experiência. Acho que quando a onda veio trouxe uma pedra que bateu com força no tornozelo dela. Na hora ela sentiu, mas não pareceu nada grave.

Barranco e Miraflores são distritos vizinhos e da praia onde estávamos podíamos até ver os prédios e o Larcomar. Aí tivemos a má ideia de seguir pela orla caminhando até lá. Valeu pela caminhada no novo calçadão (toda a estrutura à beira da praia não existia quando estivemos em Lima em 2009), mas a distância não é tão pequena quanto parece e para chegar a Miraflores temos que subir uma ladeira muito cansativa. Até tentamos pegar um taxi mas na via expressa da orla só passavam taxis ocupados.

Praia em Barranco

Praia em Barranco

Depois de uma caminhada exaustiva, chegamos a Miraflores. O bairro é muito agradável, seguro, limpo e cheio de opções de restaurantes e lojas. É uma área cara da capital peruana com casas e prédios de alto padrão. Os melhores hotéis da cidade também estão aqui.

Miraflores

Miraflores

Acho que a qualidade de vida que os moradores de Miraflores têm, no Brasil só pode ser encontrada em condomínios fechados. Sem dúvida Miraflores é a melhor região para se hospedar em Lima.

Seu Chico e dona Dóia em Miraflores

Seu Chico e dona Dóia em Miraflores

Demos uma parada rápida na praça próxima ao Larcomar e logo fomos para o apartamento, combinando de voltar mais tarde para lanchar. Chegando no apartamento fomos todos descansar um pouco.

Já estava escuro quando saímos outra vez. O clima estava muito melhor. Assim que escureceu a temperatura caiu bastante. Fomos caminhando mesmo pois o Larcomar é muito próximo do apartamento. Só o seu Chico preferiu ficar.

O Larcomar é um shopping center a céu aberto muito bonito que fica nas falésias do litoral de Miraflores, de frente para o mar. Não precisa ser coberto pois como eu já contei aqui no blog, em Lima não chove, apenas garoa.

Larcomar

Larcomar

A maior parte das lojas do Larcomar são de produtos mais específicos, lojas de roupas com marca própria, objetos de decoração, artesanato e recuerdos. Tudo com muita qualidade, mas sem a variedade das lojas de departamento e com preços altos para os padrões peruanos.

Larcomar

Larcomar

Mas o forte do Larcomar é mesmo a parte de alimentação e diversão. Eles têm cinemas, teatro, boliche (eu e Dani até jogamos em 2009, mas agora ninguém se animou), bares e boates. Há uma infinidade de restaurantes de todos os tipos de comida, além de lanchonetes, sorveterias, cafés e quiosques de tudo. E, claro, a vista de lá, com essa localização privilegiada, é perfeita. De dia ou de noite.

Vista do Larcomar

Vista do Larcomar

Chegando lá, surpreendentemente ninguém estava com vontade de lanchar. Só eu que resolvi experimentar um sanduíche do Bembos, uma rede de fast food local que está em toda parte no Peru e que desde 2009 eu queria experimentar. Pedi um trio de sanduíche, batatas fritas e refrigerante. A Dani pediu uma salada, batatas fritas e um suco de laranja. A comida é boa e não é cara, tudo saiu por 38 Nuevos Soles (R$ 25,85).

Bembos

Bembos

Depois demos mais uma volta e acabamos encontrando uma loja que vendia material fotográfico e eu aproveitei para comprar uma bolsa para pôr a minha câmera nova.

Larcomar

Larcomar

No caminho de volta para o apartamento a Dani e as nossas mães resolveram passar no supermercado para comprar mais umas coisas que estavam faltando para o café da manhã. Quando eu cheguei fui logo para o computador pois tinha que finalizar e enviar um trabalho do mestrado. Não demorou muito e elas chegaram.

Assim que deu meia-noite, e portanto 6 de abril, todo mundo apareceu no quarto com um bolo cantando parabéns pelo meu aniversario! Elas tramaram tanto que a surpresa deu certo e eu nem desconfiei. Foi por isso que elas não quiseram comer e também por isso que foram ao supermercado tão tarde. Fomos para a sala e eu posicionei a câmera em cima da geladeira para tirar uma foto soprando as velhinhas com todo mundo aparecendo.

Meu aniversário

Meu aniversário

Já era tarde e fomos dormir logo depois. As comemorações pelo meu aniversário continuam no próximo post.

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San Blas, o bairro artístico de Cusco

Oitavo dia. Quarta-feira, 04 de abril de 2012.

Cusco é uma cidade em que podemos fazer tudo à pé. Muito dificilmente precisaremos pegar um taxi. O centro histórico, onde se concentra a maioria dos lugares interessantes, é bastante compacto. Visitamos praticamente tudo o que queríamos antes de ir para Machu Picchu. Só faltava voltar à San Blas, o bairro artístico, e ir à Saqsaywamán, a grande fortaleza inca no alto do morro.

Tomamos café no hotel e saímos rumo à San Blas. Antes, perguntamos ao pessoal da recepção onde poderíamos lavar as nossas roupas e eles nos indicaram uma lavanderia bem pertinho, a duas quadras de distância do hotel, na Calle Ruinas, 483 (Laundry Hostal Porta). Deixamos a roupa de sete dias de nós cinco e eles nos prometeram entregá-las às 5 horas da tarde. O preço foi de apenas 25 Nuevos Soles (R$ 17).

Desde que chegamos eu e a Dani dizíamos que San Blas era o melhor lugar para comprar recuerdos e artesanías. Tanto pelos preços quanto pela variedade. Eu, a Dani e a dona Dóia já tínhamos ido à San Blas na véspera do dia que fomos à Machu Picchu mas não compramos nada, apenas sondamos os preços e vimos as melhores lojas, pois sabíamos que teríamos que voltar com a minha mãe que naquele dia tinha ficado no hotel, sentindo os efeitos do soroche. Falo dessa nossa primeira ida à San Blas neste post.

Plaza de Armas

Plaza de Armas

Depois de dias tolhendo as nossas mães, ávidas por comprar tudo o que viam pela frente, hoje seria o dia das compras. Liberadas, elas nem esperaram chegar em San Blas e já saíram entrando em tudo quanto é loja da Plaza de Armas. E são muitas.

Loja de artesanato e recuerdos na Plaza de Armas

Loja de artesanato e recuerdos na Plaza de Armas

Conseguimos então arrastá-las para San Blas. A maioria das lojinhas de San Blas fica na ladeira que começa na rua que passa do lado direito da Catedral, a Calle Triunfo (que depois se torna Calle Hatunrumiyoc e mais adiante muda de nome outra vez para Cuesta San Blas). Algumas lojas ficam nas transversais dessa rua principal. A longa ladeira com calçamento de pedra termina na Plaza San Blas, onde fica, como não podia deixa de ser, a Iglesia de San Blas.

San Blas

San Blas

Nessa mesma rua está a pedra dos doze ângulos que já tínhamos visto dias antes. Essa pedra faz parte da base da antigo palácio do Inca Roca, o sexto Inca, sobre o qual os espanhóis construíram o atual Palácio do Arcebispado de Cusco.

A pedra dos doze ângulos é famosa por ser a pedra entalhada com mais ângulos de toda a cidade e a área fica cheia de “guias” em busca de uma gorjeta. Encaixadas sem o uso de argamassa, as pedras dos muros incas tinham seu lugar predeterminado antes da construção, o que denota o quão precisa era a arquitetura deles.

Pedra dos doze ângulos

Pedra dos doze ângulos

O Palácio do Arcebispado, onde fica a pedra dos doze ângulos, abriga um museu de arte religiosa que deixamos para visitar depois do almoço.

A rua que corta o bairro de San Blas é ladeada por casarões antigos da época colonial, construídos sobre as bases de construções incas. Logo começamos a ver as lojas de souvenirs, artesanato e arte sacra, uma ao lado da outra. Às vezes vemos apenas uma porta e quando entramos chegamos a um pátio interno ao estilo das antigas residências espanholas com várias lojas ao redor.

Típico pátio com lojas de artesanato em San Blas

Típico pátio com lojas de artesanato em San Blas

Muitas dessas lojas vendem as mesmas peças de artesanato e souvenirs produzidos em série mas, se garimparmos bem, conseguimos encontrar peças de arte e decoração únicas e muito bem feitas. O segredo é encontrar as lojas certas, principalmente aquelas que vendem as peças feitas pelo próprio dono e sua família. Essas peças são sempre as mais bonitas, exclusivas e às vezes são até mais baratas.

Loja de artesanato em San Blas

Loja de artesanato em San Blas

Muitas dessas lojas vendem os tecidos artesanais tradicionais. Lembro de termos visitado na Bolívia, em 2009, um museu dedicado somente aos têxteis andinos. Por causa do frio da cordilheira, a prática de criar as alpacas, fiar e tecer é milenar nos Andes. A variedade de motivos dos tecidos é infindável e nada é feito em série, tudo à mão. A maioria dos tecidos à venda em San Blas é feita de lã de alpaca, mas também há os que são feitos de lã de ovelha, que são um pouco mais grosseiros. A maior parte dos tecidos é usada como ponchos, cobertores e também para fazer a típica amarração dos bebês na costa das mulheres. Cada região do país tem sua própria padronagem com cores e estilo de traçado de fios diferentes. Em San Blas podemos encontrar tecidos trazidos de todas as regiões do Peru.

No bairro artístico de Cusco encontramos também muitos gorros com protetor de orelhas, luvas, cachecóis… tudo cheio de llamas desenhadas, do jeito que os gringos adoram. Fora os mais tradicionais souvenirs: ímãs de geladeira, chaveiros, bichos de pelúcias, camisetas, bonés e muitas peças de cerâmica (máscaras, peças de decoração, esculturas de incas…).

Dani e o casario de San Blas

Dani e o casario de San Blas

Chama a atenção a variedade de presépios feitos de barro. Não é de estranhar que no Peru grande parte do artesanato encontre inspiração na religião. Os peruanos são bastante católicos. Com muitas ou poucas peças, grandes ou pequenos, e com preços também bastante variados, os presépios são uma especialidade dos artesãos de San Blas. Em 2009 eu e a Dani compramos um conjunto em que todas as pequenas peças, os reis, Maria, José e Jesus, o burro, a vaca e o pastor estavam vestidos de peruanos, com gorro e tudo. Criativo, bonito e barato.

Joias de prata também são uma tradição local. O Peru e a Bolívia são a origem de grande parte da prata que os espanhóis mandaram para a Europa na época da colônia. Até hoje as minas estão ativas e a produção continua significativa. Em geral as joias de prata são muito baratas (considerando-se que são joias) e as opções são infinitas. Um trabalho muito comum é o que é feito de prata com pedras semipreciosas coloridas encravadas formando mosaicos. Eles fazem brincos, pingentes, anéis, pulseiras, colares… tudo nesse mesmo estilo.

Em San Blas há muitas opções e os preços são, em geral, muito bons, melhores que os das lojas do entorno da Plaza de Armas (existem exceções, claro). E como tudo no Peru, ainda podemos pechinchar. Aliás, depois de algum tempo negociando tudo o que queremos comprar temos até que nos controlar para não exagerar nos pedidos de desconto. Tem vezes que só na hora que convertemos o preço para Real é que percebemos que já está muito barato.

Mas, sem dúvida, o ponto alto em San Blas são as pinturas de arte sacra e as peças de decoração entalhadas em madeira. Esses eram os maiores motivos de voltarmos à San Blas nesse nosso último dia em Cusco. Minha mãe e a dona Dóia ficaram entusiasmadas e queriam comprar tudo. Depois de andarmos por toda a extensão da ladeira, entrando e perguntando os preços, encontramos o que queríamos.

Artesanato em San Blas

Artesanato em San Blas

Em duas pequenas lojas abarrotadas de telas com pinturas sacras escolhemos e compramos algumas imagens que replicavam o estilo tradicional da Escuela Cusqueña. As pinturas são empilhadas sem a armação de madeira de acordo com o tamanho das telas e nós podemos escolher olhando uma a uma como se fossem as páginas de um livro. Minha mãe escolheu seis e a dona Dóia mais três. Os preços são excepcionalmente bons e fixos, variando de acordo com o tamanho da pintura. Comprando mais conseguimos mais descontos.

Artesanato em San Blas

Artesanato em San Blas

Com a simpatia comum aos peruanos, a senhora que nos atendeu nos explicou os detalhes das obras que escolhemos e sobre o estilo da Escuela Cusqueña. Como já contei aqui no blog, os espanhóis criaram escolas de arte nas principais cidades coloniais e essas escolas ficaram incumbidas de fornecer as peças sacras para as igrejas e conventos das colônias. As imagens religiosas eram fundamentais para a evangelização dos indígenas nativos pois, obviamente, eles não sabiam ler e o Cristianismo era ensinado através das pinturas.

Entre as mais importantes escolas de arte colonial espanhola estão a Escuela Cusqueña (Cusco), a Escuela Limeña (Lima) e a Escuela Quiteña (Quito). Cada escola desenvolveu seu estilo próprio e hoje as obras antigas estão espalhadas por inúmeros museus da região. Nessas escolas não era valorizada a autoria pessoal das pinturas. Alguns artistas se especializavam em pintar as roupas, outros em pintar a pele dos santos, o cenário, os detalhes dourados. É por isso que nenhuma pintura é assinada.

Quando saímos das lojas onde compramos as pinturas passamos em frente a uma das lojas de molduras entalhadas em madeira. O trabalho de entalhe em madeira dos artistas locais é excelente e geralmente eles usam cedro, uma madeira nobre.

Artesanato em San Blas

Artesanato em San Blas

Inicialmente achamos que comprar as molduras não seria uma boa ideia por causa da dificuldade de carregá-las o resto da viagem. Íamos levar apenas as pinturas e mandar colocar as molduras no Brasil. Depois vimos que elas eram bem leves. Mas o que nos fez mesmo mudar de ideia foram os preços… só para se ter uma ideia, somando o preço das pinturas e das molduras, o valor ainda era menor que o de mandar emoldurar as pinturas no Brasil com molduras que não seriam entalhas a mão e nem teriam toda aquela beleza. Valia muito a pena.

As molduras eram feitas pelo irmão da senhora que nos atendeu, a dona Sonia. Mostramos a ela as pinturas que tínhamos comprado e ela começou a nos mostrar as molduras para aqueles tamanhos de tela. Ela ficou bastante animada ao ver que ia vender várias peças e nos prometeu ainda mais descontos. Todas as molduras eram de cedro e tão leves que decidimos nem desmontá-las. O único problema era que algumas estavam escuras, do jeito que queríamos, e outras ainda bem claras, na cor da madeira crua.

Foi aí que a dona Sonia nos disse que, se quiséssemos mesmo levar todas, ela poderia colocar as molduras no mesmo tom rapidamente. Quando confirmamos ela começou a pintar a madeira com betume, um verniz natural de cor marrom escuro e secagem rápida. Depois, com graxa de sapato e uma escova de lustrar, ajustou o tom e todas as molduras ficaram marrom escuro. Muito interessante a técnica e foi tudo feito ali, na nossa frente, na hora.

Dona Sonia escurecendo as molduras

Dona Sonia escurecendo as molduras

Compramos tudo o que queríamos. Além das pinturas e molduras, levamos ainda outros souvenirs e peças de decoração e eu comprei uns ímãs para a minha coleção. San Blas sem dúvida nenhuma vale o passeio.

Pinturas quem compramos em San Blas, já emolduradas

Pinturas que compramos em San Blas, já emolduradas

Descemos a ladeira de volta para a Plaza de Armas. Já era hora do almoço e escolhemos outra vez o restaurante Don Marcelo, ao lado da Iglesia de la Compañía de Jesús.

Almoço no Don Marcelo

Almoço no Don Marcelo

Pedimos pratos de massa, carne e frango, além de bebidas e sobremesas. As porções são grandes, a comida estava muito boa e, como das outras vezes, fomos bem atendidos. A conta saiu por 145 Nuevos Soles (R$ 98,63), com gorjeta.

Depois do almoço voltamos para o hotel para deixar o seu Chico que queria ficar descansando e logo em seguida eu, a Dani e nossas mães saímos outra vez.

Em Cusco sempre encontramos com cholitas vestidas com roupas típicas e com carneirinhos ou filhotes de llamas. Basta dar algumas moedas, sem preço fixo, e podemos tirar uma foto com elas.

Cholitas com roupas típicas e seus carneirinhos

Cholitas com roupas típicas e seus carneirinhos

Logo ao lado de onde tiramos a foto com as cholitas fica um pátio cheio de lojinhas de artesanato que foi onde a Dani tinha comprado os toritos de Pucará para mim. Esse pátio reúne artesãos de uma cooperativa e os preços são excepcionalmente bons, melhores até que os de San Blas. Há muitas opções. Esse pátio fica na Calle Loreto, uma passagem de pedestres que passa ao lado da Iglesia de la Compañía de Jesús. Vale a pena dar uma olhada lá também.

Pátio com várias lojas de artesanato na Calle Loreto

Pátio com várias lojas de artesanato na Calle Loreto

Voltamos ao Palácio Arcebispal, onde está instalado o Museo de Arte Religioso, na rua que leva à San Blas. Em 2009 eu e a Dani já tínhamos visitado esse museu. O acervo é composto em sua grande maioria por pinturas originais da antiga Escuela Cusqueña.

O palácio foi construído sobre as fundações do palácio do Inca Roca, o sexto Inca, e até a metade dos muros ficam aparentes as grandes pedras incas milimetricamente encaixadas. A parte de cima já foi feita pelos colonizadores espanhóis.

Palácio Arcebispal

Palácio Arcebispal

Inicialmente uma mansão colonial, o palácio foi logo transformado em sede do Arcebispado. A própria arquitetura do antigo palácio, com seus portais entalhados em pedra, já vale a visita. O pátio interno tem um jardim bem cuidado e uma fonte. 

Pátio do Palácio Arcebispal

Pátio do Palácio Arcebispal

Dentro, nas salas de exposição, podemos ver uma boa amostra do barroco andino em grandes altares dourados com imagens de santos, tetos de madeira cheios de detalhes, mobília e quadros com molduras muito rebuscadas.

Museo de Arte Religioso

Museo de Arte Religioso

Visitar esse museu e as lojas de San Blas no mesmo dia tem tudo a ver. Um passeio complementa o outro e a gente acaba valorizando ainda mais as peças de arte que até hoje são vendidas nas ruas de San Blas.

Museo de Arte Religioso

Museo de Arte Religioso

O ingresso no Museo de Arte Religioso del Arzobispado del Cusco custa 15 Nuevos Soles (R$ 10,20) e, como o museu não é muito grande, em cerca de meia hora dá para ver tudo.

Do museu fomos fazer nosso último passeio em Cusco: Saqsaywamán. As ruínas dessa antiga fortaleza inca, uma das maiores e mais importantes de todo o império ficam no alto de um dos morros que rodeiam o centro antigo de Cusco e a subida até lá é bastante desgastante, mais por causa da altitude (quase 3.700 metros acima do nível do mar) do que por causa da distância. A partir da Plaza de Armas são uns 40 minutos de caminhada para vencer os 2 km até as ruínas. Não recomendo a visita a Saqsaywamán logo nos primeiros dias em Cusco, antes de estar completamente adaptado, sob pena de agravar o soroche, o mal-estar da altitude.

Saqsaywamán foi um complexo construído como fortaleza mas que sempre teve mais funções religiosas do que militares. As muralhas em ziguezague cercam uma grande praça central que servia para reunir milhares de pessoas para as cerimônias. Até hoje é realizada ali a cerimônia do Inti Raymi (Festival do Sol), todo o dia 24 de junho. Em 2009 estávamos em Machu Picchu quando a festa ocorreu e acabamos não vendo muita coisa, mas lembro que a cidade estava muito movimentada, com inúmeros desfiles em trajes típicos e encenações nas ruínas no alto do morro.

Quando as tropas de Pizarro chegaram a Cusco e dominaram a cidade, as construções de Saqsaywamán foram gradualmente sendo destruídas e os materiais usados na construção dos prédios coloniais espanhóis e é por isso que hoje só vemos as ruínas. Em 1536, na tentativa de retomar o império, Manco Inca tentou dominar Saqsaywamán para atacar Cusco, mas foi derrotado pelos espanhóis em uma sangrenta batalha que foi a última a ter como palco essa fortaleza.

O caminho até Saqsaywamán começa na Calle Suecia, que é a rua que passa em frente à catedral e segue morro acima para a esquerda (norte). Não há grandes riscos de se perder pois todos sabem como chegar lá e qualquer dúvida é só perguntar para alguém no caminho.

Na ladeira para Saqsaywamán

Na ladeira para Saqsaywamán

As ladeiras até Saqsaywamán são intermináveis e a maior parte é só para pedestres. Há trechos com enormes escadarias que nos obrigam a fazer várias paradas no caminho para tomar fôlego enquanto os moradores locais acham graça da nossa situação.

Conforme subimos a vista da cidade fica mais bonita. No meio do caminho fica a Iglesia de San Cristóbal, que podemos ver de lá de baixo, da Plaza de Armas. Da pracinha em frente à essa igreja temos a melhor vista panorâmica de Cusco.

Vista panorâmica de Cusco

Vista panorâmica de Cusco

Vista panorâmica de Cusco

Vista panorâmica de Cusco

Já estávamos no fim da tarde e o cansaço bateu forte. Minha mãe desistiu e resolveu voltar e a dona Dóia foi com ela. Provavelmente elas ficaram lá pelas lojas da Plaza de Armas. Eu e a Dani seguimos morro acima. Estávamos preocupados com o horário e então apressamos o passo e ficamos mais ofegantes ainda. Lá no alto estava ficando frio e mesmo assim estávamos suando por causa da caminhada naquele ar rarefeito. Depois de muito subir ladeira, finalmente avistamos a entrada do parque.

Entrada do parque

Entrada do parque

Seguimos adiante mais alguns metros até a guarita onde se vendem os ingressos e ficamos frustrados quando nos avisaram que o parque tinha acabado de fechar (se eu não me engano ele fecha às 5 horas da tarde, em ponto). Por causa de cinco minutos o guarda não nos deixou entrar na área das ruínas. Todo o nosso sacrifício tinha sido em vão!

Saqsaywamán

Saqsaywamán

Só conseguimos ver uma pequena parte das ruínas, que não é tão monumental, e mesmo assim de longe. O complexo é gigantesco, e difícil de entender, cheio de caminhos, escadas e altos muros. Algumas pedras usadas na construção dessas muralhas chegam a medir 9 metros de altura e 5 metros de largura e a pesar até 300 toneladas.

Saqsaywamán

Saqsaywamán

Ao menos a minha mãe e a d. Dóia tinham desistido no meio do caminho e se poupado de parte do esforço. Em 2009 eu e a Dani conseguimos entrar e explorar bastante as ruínas. Não deve ter mudado muito desde lá.

Antes de ir embora avistamos umas llamas pastando e fomos lá tirar umas fotos delas. Esse é sem dúvida um bicho muito simpático.

Dani e as llamas

Dani e as llamas

Descemos pelo mesmo caminho da subida. Já estava escurecendo e tivemos lindas vistas da cidade se iluminando.

Anoitecer em Cusco

Anoitecer em Cusco

Quando percebemos já estávamos outra vez na Plaza de Armas. Realmente, para baixo todo santo ajuda.

Plaza de Armas

Plaza de Armas

Plaza de Armas e a Catedral de Cusco

Plaza de Armas e a Catedral de Cusco

Passamos na lavanderia para pegar nossas roupas que já estavam prontas a nossa espera. Seguimos para o hotel, onde encontramos as nossas mães e o seu Chico e contamos a nossa desventura de subir tudo aquilo e não conseguir entrar. No dia seguinte íamos viajar de volta para Lima. Comemos um lanche no hotel mesmo e depois de arrumar nossa bagagem fomos logo dormir.

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Voltando para Cusco via Vale Sagrado dos Incas

Sétimo dia. Terça-feira, 03 de abril de 2012.

Passei muito mal a noite toda. Praticamente não dormi, tendo que ir ao banheiro de meia em meia hora. Desde a véspera eu já vinha me sentindo mal da barriga. Essa minha ‘indisposição’ não foi causada por alguma coisa estragada que eu comi, pelo contrário, acho que foi uma reação natural a quase uma semana comendo só coisas boas. Desde que chegamos ao Peru eu sempre dei preferência para as comidas típicas. E a comida típica peruana é deliciosa, mas também é um pouco mais condimentada e apimentada que a nossa comida do dia-a-dia no Brasil. Eu adoro, mas acho que exagerei.

Como sempre, eu estava munido de muitos remédios. Eu e a Dani sempre carregamos com a gente remédios para os males mais comuns, inclusive para dor de barriga. Já puliquei aqui no blog a lista de tudo que levamos nas nossas viagens. Tomei de tudo um pouco. Para minha sorte, minha mãe também tem o mesmo cuidado que a gente e trouxe com ela quase uma farmácia inteira. Uma coisa é certa: não há melhor hora para se ficar doente do que quando estamos com a nossa mãe, ainda mais quando ela é tão cuidadosa em relação à saúde como é a minha. Eu que fui um pouco impaciente quando ela se sentiu mal por causa do soroche em Cusco, agora recebia uma lição.

Nosso trem saía às 10:55 da manhã. Meu medo maior era ter que fazer toda a viagem de volta para Cusco passando mal. Não queria comer nada com medo de piorar ainda mais. A dona Dóia e a Dani saíram para comprar frutas para mim e eu acabei comendo só uma banana e uma maçã.

Quando deu a hora, pegamos nossas coisas, fizemos o check-out e partimos rumo à estação de trens que, por sorte, era ladeira abaixo. Falo sobre a compra e o preço das passagens no post anterior.

Feira de artesanato em Aguas Calientes

Feira de artesanato em Aguas Calientes

Antes de chegar à estação temos que passar por uma feira de artesanato e recuerdos peruanos de todo tipo que fica bem na entrada. Os preços não são dos melhores, mas há muitas opções.

Feira de artesanato em Aguas Calientes

Feira de artesanato em Aguas Calientes

Uma cena me chamou a atenção nessa feirinha. Uma garotinha de cerca de 10 anos de idade, ou até menos, estava carregando o irmãozinho nas costas, da forma tradicional, amarrado em um tecido típico. É assim que as famosas cholas e as mulheres mais simples carregam os filhos aqui no Peru. Mas essa era a primeira vez que eu via uma menina tão pequena carregando outra criança. A mãe deles estava ao lado, carregando várias sacolas. Eu pedi para tirar uma foto dos filhos dela e, com toda a simpatia, ela disse que sim, ficou toda orgulhosa e até descobriu o rosto do bebê para que ele aparecesse. Essa foi uma das fotos mais bonitas que eu já tirei.

Menina peruana carregando  o irmão nas costas

Menina peruana carregando o irmão nas costas

Estação de trens de Aguas Calientes

Estação de trens de Aguas Calientes

A estação de trens de Aguas Calientes é pequena e bem simples, mas tudo é organizado e limpo. Tem um café de primeira e bons banheiros.

Estação de trens de Aguas Calientes

Estação de trens de Aguas Calientes

Depois que entramos esperamos mais uns 20 minutos até que o embarque começasse.

Embarcando

Embarcando

Dessa vez nosso trem era um Vistadome, uma categoria superior ao Expedition que pegamos na vinda. Com exceção da comida servida, que no Vistadome é muito mais elaborada, parece mais um almoço, não percebi muita diferença entre as duas categorias de trens.

Comida servida no trem, com bebidas à escolha

Comida servida no trem, com bebidas à escolha

Eu não estava disposto nem para apreciar a bonita paisagem do caminho. Logo depois do lanche, que eu praticamente não comi, resolvi me acomodar na poltrona e tirar um cochilo para tentar compensar a noite mal dormida.

Paisagem na janela: montanhas cortadas pelo rio Urubamba

Paisagem na janela: montanhas cortadas pelo rio Urubamba

Mas aí começou uma festinha a bordo surpresa. Quando o trem estava todo em silêncio, colocaram uma música típica peruana e de repente surge um cara vestido de personagem folclórico dançando no corredor. Em circunstâncias normais eu acharia legal, mas com o mal estar que eu estava sentindo…

Apresentação folclórica

Apresentação folclórica

Como já disse aqui no blog, a cultura peruana é muito forte e cheia de particularidades. Cada região tem uma comida, uma dança, uma festa própria. No sul do país, na região de Puno, quase fronteira com a Bolívia, há uma dança folclórica que é comum aos dois países, chamada Diablada. Eu e a Dani conhecemos essa dança em 2009, na nossa primeira viagem à Bolívia e ao Peru.

Apresentação folclórica

Apresentação folclórica

Não conheço as minúcias mas sei que a dança tem origens na miscigenação entre o catolicismo trazido pelos colonizadores espanhóis e as tradições dos povos andinos que precederam os Incas. Para mim, mais do que a dança, o que chama a atenção na Diablada são as roupas e as elaboradas máscaras coloridas que reproduzem os demônios, os anjos e outros personagens folclóricos. Qualquer um que viaje pelo Peru e pela Bolívia com certeza verá várias dessas máscaras à venda nas lojas de artesanato. Em geral feitas de papel machê, elas têm chifres, olhos esbugalhados e dentes enormes. A criatividade para fazer essas máscaras não tem limites.

Apresentação folclórica

Apresentação folclórica

Até que a máscara que o funcionário do trem estava usando era das mais simples mas a performance dele foi animada. Ele foi dançando e mexendo com todo mundo até que o vagão inteiro estava batendo palmas, tirando fotos e participando da brincadeira.

Quando todo mundo estava se divertindo com a dança, o sistema de som anunciou um desfile de roupas. Colocaram música dançante e os próprios funcionários que há pouco haviam nos servido começaram a desfilar com as peças, na maioria de lã de alpaca. Eram ponchos, casacos, cachecóis, gorros… todas peças muito finas e de boa qualidade mas, em compensação, os preços eram bastante altos.

Funcionários da Perurail desfilando

Funcionários da Perurail desfilando

Logo eles começaram a escolher alguns dos passageiros para participar do desfile também. A Dani foi um deles.

Dani com um xale de lã de alpaca

Dani com um xale de lã de alpaca

Claro, como não podia deixar de ser, justo nessa hora a minha dor de barriga resolveu piorar. Eu me levantei e fui para o banheiro lá atrás. Aí percebi que o banheiro estava servindo de camarim para os ‘modelos’ e para o cara vestido de personagem folclórico. Voltei para o meu lugar e fiquei lá sofrendo calado enquanto todo mundo curtia a apresentação.

Quando o desfile estava acabando, eles começaram a mostrar as roupas mais de perto e oferecê-las para compra. A qualidade dos produtos era excelente, isso eu não duvido. O problema eram os preços. Tudo era bem caro.

Essa nossa viagem de trem não iria até Cusco. Nessa época do ano (janeiro, fevereiro, março e abril), o trecho de trem termina em Ollantaytambo, uma cidadezinha no meio do caminho entre Cusco e Aguas Calientes. A viagem de trem entre Aguas Calientes e Ollantaytambo dura cerca de 2 horas e 10 minutos. Diferentemente da ida, o restante da viagem até Cusco não estava incluído no preço da passagem que compramos na Perurail. Tínhamos que fazer este trecho por conta própria.

Mas sabíamos que isso não seria um grande problema. Na estação de trens de Ollantaytambo há muitos motoristas oferecendo levar os passageiros até Cusco em vans e micro-ônibus, os chamados colectivos.

Como nós estávamos em um grupo de cinco, não houve dificuldade alguma. Nem tivemos que ficar esperando completar a lotação com outros passageiros. Como sempre no Peru não há taxímetro e todos os preços devem ser negociados antes. Pagamos 50 Nuevos Soles (R$ 34,01) para todos nós. Nossa van era novinha e o nosso motorista era bastante solícito e educado.

Na estrada para Cusco

Na estrada para Cusco

A viagem entre Ollanta e Cusco dura quase 2 horas e a estrada é muito boa.

Valle Sagrado de los Incas

Valle Sagrado de los Incas

Logo que entramos o motorista colocou um CD de música peruana, quase toda tocada com flautas, e logo entramos no clima.

Valle Sagrado de los Incas

Valle Sagrado de los Incas

Essas 2 horas de viagem foram ladeadas por paisagens muito bonitas. A região do vale do rio Urubamba é conhecida como Valle Sagrado de los Incas e foi um importante eixo de desenvolvimento dos povos andinos desde tempos anteriores ao Império Inca. O vale até hoje é muito fértil e, na época dos incas produzia os melhores alimentos para o abastecimento da capital Cusco.

Valle Sagrado de los Incas

Valle Sagrado de los Incas

No caminho há minúsculos vilarejos e algumas cidadezinhas pequenas, além de plantações, montanhas, lagoas… é muito bonito.

Valle Sagrado de los Incas

Valle Sagrado de los Incas

Vilarejos e cidadezinhas como Písac, Chinchero e Ollantaytambo são famosos pelos mercados de comidas e legítimo artesanato, além de guardarem sítios arqueológicos importantes que podem ser visitados.

Valle Sagrado de los Incas

Valle Sagrado de los Incas

Ele chegou até a nos ofereceu desviar o caminho para nos levar à algum desses vilarejos mas, por causa da minha ‘indisposição’, pedimos para ele seguir direto para Cusco mesmo. Um dia ainda voltarei para conhecer essa região mais minuciosamente.

Desde a ida para Aguas Calientes, quando fomos de ônibus até Ollantaytambo e passamos pelos bairros da periferia de Cusco e também por alguns vilarejos, nos chamou a atenção que em muitos dos telhados das casas, bem no meio da cumeeira, havia um par de touros de barro, ladeando uma pequena cruz de madeira com uma escadinha como se fosse de brinquedo apoiada nela. Nesta viagem, outra vez avistamos vários desses símbolos. Aproveitamos e perguntamos ao nosso motorista o que eles significavam.

Ele nos disse que essa era uma tradição antiga entre o povo mais simples do interior, principalmente do sul do país, que teve origem na cidade de Pucará, no departamento de Puno. Quando um casal está em processo de constituir uma família e acaba de construir uma casa, antes de se mudar eles colocam uma cruz como sinal de que ali viverá uma família católica. Os tourinhos de barro, conhecidos como Toritos de Pucará, representam a fidelidade, a prosperidade e a força do trabalho. A escada representa a esperança de sempre subir na vida. Em alguns telhados podemos ver que outros símbolos também são acrescentados. Em outros, os Toritos de Pucará estão sozinhos. Infelizmente não consegui tirar nenhuma foto boa deles no alto das casas pois sempre passávamos rápido e eu nunca tinha tempo de preparar a máquina. Ficou para uma próxima.

Valle Sagrado de los Incas

Valle Sagrado de los Incas

Nosso motorista também nos mostrou a tuna, uma fruta típica peruana que dá em cactos que nascem naturalmente em grande quantidade à beira da estrada. Já tínhamos tomado e gostado do suco de tuna, mas nunca tínhamos visto a fruta na planta.

Valle Sagrado de los Incas

Valle Sagrado de los Incas

A região do Valle de los Incas também possui alguns dos melhores (e também mais caros) hotéis e resorts do Peru, alguns deles com fama internacional.

Valle Sagrado de los Incas

Valle Sagrado de los Incas

O famoso trekking pela Trilha Inca, que dura três ou quatro dias desde Cusco até Machu Picchu passa por este vale. Deve ser uma experiência interessante poder desfrutar um pouco mais dessa paisagem. Lembro que, em 2009, encontramos com umas francesas na Bolívia que tinham feito a Trilha Inca antes de seguir viagem à Bolívia. Elas adoraram e disseram que vale a pena fazer essa caminhada até Machu Picchu mas, como era junho e as noites são em barracas de camping, elas pegaram um frio de temperaturas negativas e passaram três dias sem conseguir dormir.

Chegada a Cusco

Chegada a Cusco

Chegamos a Cusco por volta das 3 horas da tarde e fomos direto para o hotel. Assim como nos primeiros dois dias, ficamos no Taypikala Hotel Cusco e pagamos 765 Nuevos Soles (R$ 520,40) por mais duas diárias em um quarto duplo e outro triplo, com café da manhã. Nossas bagagens que ficaram guardadas no hotel estavam lá seguras e intactas.

Ainda não tínhamos almoçado e eu até já me sentia melhor. Então saímos para comer alguma coisa. Preferi evitar comida regional. Fomos outra vez ao restaurante italiano Don Marcelo, que fica na Plaza de Armas, bem ao lado da Iglesia de la Compañía de Jesús.

Pedimos um prato de ravioli, um de tortelini, um de filé na chapa e uma truta com legumes no vapor e arroz branco. Para beber pedimos refrigerantes e água. Estava tudo delicioso e a conta ficou em 129 Nuevos Soles (R$ 87,75).

Depois do almoço-jantar, voltamos para o hotel. Esses dois últimos dias foram um pouco cansativos e eu ainda estava prejudicado pela noite mal dormida. Resolvi ficar e dormir um pouco, mas já sentia que estava melhorando. A minha mãe, com medo da volta do soroche agora que tínhamos voltado para a altitude de Cusco, preferiu ficar descansando comigo. O seu Chico também preferiu ficar no hotel enquanto a Dani e a dona Dóia saíram para dar uma volta naquele fim de tarde friozinho que fazia em Cusco.

Quando elas voltaram, já de noite, chegaram cheias de compras. Elas acharam umas senhoras vendendo artesanato com preços muito bons, compraram um monte de coisa e me presentearam com um par de Toritos de Pucará de barro, no estilo rústico, igual aos que a gente viu na estrada. Já tínhamos visto muitos desses touros para vender, mas comprar sabendo exatamente o significado deles é muito mais interessante. Nas lojas há uma infinidade de peças de variados tamanhos e alguns bem coloridos, mas o mais tradicional é o rústico, com a cor do barro.

Toritos de Pucará

Toritos de Pucará

Nosso fim de noite foi comendo sanduíche do hotel mesmo, gostoso, leve e prático. O dia seguinte seria nosso último dia inteiro em Cusco antes de voltarmos para Lima.

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Simplesmente Machu Picchu

Sexto dia. Segunda-feira, 02 de abril de 2012.

Finalmente o grande dia de ver Machu Picchu havia chegado. Acordamos muito cedo, quando ainda estava clareando. Na véspera eu tinha combinado com o rapaz da recepção de deixar nossa bagagem no hotel. A maioria dos hotéis de Cusco está acostumada a guardar a bagagem dos hóspedes que vão à Aguas Calientes para subir até Machu Picchu. Pela manhã, deixamos as malas grandes e o meu mochilão guardados em um depósito que já estava cheio de malas de outros hóspedes e cada um de nós levou apenas uma mochila pequena com algumas roupas, remédios, produtos de higiene e, claro, tudo o que tínhamos de importante e de valor.

A caminho da estação Wanchaq

A caminho da estação Wanchaq

Logo estávamos caminhando rumo à estação de trens de Wanchaq (ou Huanchac), que era perto do nosso hotel, a apenas alguns quarteirões de distância. Quando comprei as passagens de trem pela Peru Rail me explicaram que nos meses de janeiro, fevereiro, março e abril, por medida de segurança por ser temporada de chuva, os trens da Peru Rail rumo à Aguas Calientes não saem de Cusco pela estação de Poroy (como eu e a Dani fizemos em junho de 2009). Em vez disso os passageiros tem que ir à estação de trens de Wanchaq onde ônibus turísticos da Peru Rail estarão esperando para levá-los até a estação de trens de Ollantaytambo, a 65 km de Cusco, e de lá pegar o trem até Aguas Calientes, cidade-base de Machu Picchu.

Aliás, o processo de compra das passagens de trem da Peru Rail foi um pouco complicado desta vez. Em 2009, eu e a Dani compramos as passagens pelo site oficial da Peru Rail, pagando com nossos cartões de crédito, sem problemas. Agora tivemos que fazer tudo via e-mail pois a forma de pagamento do site exigia que nossos cartões operassem com os sistemas de senhas para compras pela internet Verified by Visa (no caso do cartão Visa) ou SecureCode (no caso do Mastercard) e o Itaú, emissor dos nossos cartões, ainda não trabalhava com esses sistemas.

Uma opção era deixar para comprar as passagens já em Lima, em um escritório da Peru Rail, apenas poucos dias antes da viagem para Machu Picchu. Isso seria arriscado pois poderia não haver mais assentos disponíveis. Então resolvi mandar um e-mail para a Peru Rail relatando o problema e fui muitíssimo bem atendido por um dos funcionários deles. Depois de alguns e-mails trocados conseguimos comprar as passagens. Tive que enviar uns formulários preenchidos, assinados e escaneados (contrato de compra das passagens e autorização de compra no cartão de crédito), informar os dados completos dos cinco passageiros, os horários e as categorias dos trens, além de cópias do meu passaporte e do meu cartão de crédito. Não é a forma mais segura de fazer compras pela internet mas foi o único jeito de garantir as passagens antecipadamente. Não tive problemas. Em uns três dias eles me mandaram as passagens também por e-mail. Aí foi só imprimir e levar.

A Peru Rail tem várias categorias de trens, com várias faixas de preço também. Na ida escolhemos o trem mais simples, o Expedition, e para a volta escolhemos o trem intermediário, o Vistadome, ambos com teto de vidro. Cada passagem custou 109 Dólares (277,95 Nuevos Soles ou R$ 189,08) ida e volta. Na ida conseguimos comprar o trecho Cusco – Machu Picchu (ônibus e trem) mas na volta só conseguimos o trecho Machu Picchu – Ollantaytambo (apenas trem). Eu e a Dani já tínhamos noção de que não seria difícil conseguir transporte em Ollantaytambo para voltar a Cusco pois na saída da estação de trens de Ollanta sempre há muitos motoristas de vans e ônibus oferecendo seus serviços.

Pois bem, nas nossas passagens estava escrito que deveríamos estar na estação de Wanchaq às 06:15 da manhã e assim fizemos. Quando chegamos lá já havia muitos outros passageiros esperando e os funcionários da Peru Rail já organizavam tudo. Pontualmente às 06:45 os ônibus saíram rumo à Ollantaytambo. Eu estava com tanto sono que dormi quase o caminho todo. A viagem de ônibus entre Cusco e Ollanta dura 1 hora. Descemos do ônibus na estação de trens de Ollantaytambo e pouco depois, às 08:00 horas, o trem já estava saindo.

A espera do embarque em Ollantaytambo

A espera do embarque em Ollantaytambo

Foi só o tempo de tomar um café para espantar o sono e embarcar no trem.

Embarque em Ollantaytambo

Embarque em Ollantaytambo

Trem Peru Rail Expedition rumo à Aguas Calientes (Machu Picchu)

Trem Peru Rail Expedition rumo à Aguas Calientes (Machu Picchu)

A viagem de trem de Ollantaytambo até Aguas Calientes, cidade-base de Machu Picchu, dura 2 horas e 10 minutos e é uma atração por si só. Na maior parte do tempo o trem arranha as encostas de montanhas quase verticais, margeando o agitado e pedregoso rio Urubamba praticamente a viagem toda.

Trem serpenteando entre montanhas

Trem serpenteando entre montanhas

A vegetação é bem verde e variada e a paisagem é sempre campestre, cheia de pequenas plantações e pastos. O trem tem janelas grandes e teto de vidro, então praticamente podemos ver tudo mesmo que não estejamos sentados no lado que tem vista para o rio.

Dona Dóia, seu Francisco e minha mãe, Conceição, admirando a vista da viagem

Dona Dóia, seu Francisco e minha mãe, Conceição, admirando a vista da viagem

Nem sentimos o tempo passar. Essa é uma viagem muito agradável. Há até um serviço de bordo que nos oferece um pequeno lanche. No trem superior, batizado com o nome do explorador que redescobriu Machu Picchu, o americano Hiram Bingham, o serviço é luxuoso (e o preço da passagem, claro, é compatível com isso).

Lanchinho servido no trem

Lanchinho servido no trem

Chegamos a Aguas Calientes pouco depois das 10 horas da manhã.

Chegada na estação de Aguas Calientes

Chegada na estação de Aguas Calientes

Desembarcamos e fomos logo procurar o nosso hotel. O plano era subir para Machu Picchu o mais cedo possível.

Aguas Calientes, também conhecida por Machu Picchu Pueblo, é uma cidadezinha encravada entre paredões montanhosos, cortada pelo rio Urubamba, cercada de muito verde e superlotada de turistas do mundo todo. O nome da cidade vem de umas fontes de águas termais que ficam por lá.

Cruzando a ponte sobre o rio Urubamba logo na saída da estação de Aguas Calientes

Cruzando a ponte sobre o rio Urubamba logo na saída da estação de Aguas Calientes

O que há de chamativo é a beleza natural do lugar. A cidade em si não tem nenhum atrativo, não é bonita e nem histórica. Podemos dizer que a razão de ser de Aguas Calientes é servir de cidade-base para os visitantes de Machu Picchu. Tudo ali gira em torno do turismo e praticamente não há mais nada além de algumas poucas ruas (a maioria de pedestres), hotéis, restaurantes, agências de turismo e lojas de artesanato. Há opções para todos os gostos e bolsos, desde o hostel mais barato, até luxuosos hotéis.

Essa cidadezinha cresceu em torno da estação de trens construída para levar os visitantes até Machu Picchu. Só se chega à Aguas Calientes por trem ou a pé, pela trilha inca, uma longa caminhada de 33 km por antigos caminhos incas que cortam as montanhas da região e dura 4 dias, saindo de Cusco. Por esta dificuldade de transporte tudo o que é consumido em Aguas Calientes é um pouco mais caro que em Cusco, mas nada absurdo.

Subindo a ladeira rumo ao hotel

Subindo a ladeira rumo ao hotel

Como sempre faço, marquei no mapa do guia onde ficava nosso hotel. O que não dava para prever é que ele seria no alto de uma interminável ladeira. Fomos subindo bem devagar para não cansar muito. A sorte é que Aguas Calientes fica a ‘apenas’ 2.410 metros acima do nível do mar, bem mais baixo que Cusco, que fica a 3.326 metros de altitude. Até a minha mãe, que sofreu bastante com o soroche em Cusco, aqui estava se sentindo melhor. É comum que pessoas que sentem soroche, o mal da altitude, sejam aconselhadas a descer para cidades um pouco mais baixas por um ou dois dias para ajudar na adaptação do organismo.

Reservamos dois quartos, um duplo e um triplo, no Inti Wiñaywayna Hotel por uma noite ao preço de 433,50 Nuevos Soles (R$ 294,89), o equivalente a R$ 58 para cada um, com internet wifi grátis e café da manhã. Os quartos eram bem simples, mas limpos e com camas confortáveis. Logo que fizemos o check-in, deixamos as coisas e saímos em seguida para comprar os ingressos para Machu Picchu e as passagens de ônibus para subir até lá.

Ladeiras de Aguas Calientes

Ladeiras de Aguas Calientes

A cidade é muito pequena e logo achamos o escritório do governo onde vendem os ingressos para Machu Picchu. Fica na única pracinha da cidade com uma estátua de um Inca no centro. É só perguntar que todo mundo sabe onde fica. Já contei aqui no blog o nosso medo de não conseguir comprar os ingressos no mesmo dia por causa da mudança na administração turística das ruínas mas, pelo que vimos, não há com que se preocupar. Sequer filas havia. Cada ingresso para Machu Picchu custou 128 Nuevos Soles (R$ 87,07). Quem preferir (e conseguir) pode comprar antecipadamente pelo site oficial do governo peruano para a compra dos ingressos de Machu Picchu.

Praça em Aguas Calientes

Praça em Aguas Calientes

Do escritório de turismo fomos até o ponto de ônibus que é bem pertinho para comprar as passagens para subir. Os micro-ônibus que fazem o trajeto são de empresas privadas, são novos e me pareceram seguros. Há saídas a cada 15 minutos. Compramos a passagem no ponto e já embarcamos direto pois já havia um ônibus pronto para partir. Cada passagem custou 43,35 Nuevos Soles (R$ 29,48) ida e volta. É um pouco caro mas a única outra opção seria subir a pé. Em 2009, eu e a Dani subimos de ônibus mas tivemos a insensata ideia de descer a pé. A vista é muito bonita, mas é extremamente cansativo. Cortamos caminhos por trilhas no meio da mata e a caminhada durou mais de uma hora, praticamente o tempo todo descendo degraus. Ficamos com as pernas doloridas. Não existia a possibilidade de fazermos isso com nossos pais.

Aguas Calientes

Aguas Calientes

A subida de ônibus dura no máximo 10 minutos e o micro-ônibus vai ziguezagueando pela estradinha de terra até o alto. É uma subida muito íngreme e o ônibus passa a centímetros do precipício.

Precipício do alto de Machu Picchu

Precipício do alto de Machu Picchu

Chegamos à entrada do parque às 12:30 horas. Entramos e caminhamos por uma trilha de pedras rumo ao ponto de observação principal. A caminhada é pequena mas é sempre em subida e foi inevitável ficar bastante ofegante.

Caminhada para chegar ao mirante principal

Caminhada para chegar ao mirante principal

Mas certamente todo este esforço compensa. Depois de acordar cedo em Cusco, pegar ônibus, trem, subir as ladeiras de Aguas Calientes, pegar o micro-ônibus e caminhar mais um pouco em subida, finalmente temos diante de nós uma das paisagens mais fantásticas do mundo: Machu Picchu.

Machu Picchu

Machu Picchu

A cidade de Machu Picchu que em quéchua, a língua dos incas, quer dizer “montanha velha”, foi construída entre 1438 e 1493, nos reinados de dois dos mais importantes imperadores incas, Pachacutec Yupanqui e Tupac Yupanqui.

Machu Picchu

Machu Picchu

Machu Picchu

Machu Picchu

Machu Picchu foi habitada por cerca de 100 anos, sendo abandonada na época da conquista. Provavelmente os espanhóis colonizadores nunca souberam de sua existência, pelo menos nenhum relato enviado à Espanha dá conta de Machu Picchu.

Machu Picchu

Machu Picchu

A cidade ficou perdida durante séculos e foi engolida pela floresta. Apenas poucos habitantes locais sabiam da existência de Machu Picchu e o caminho para chegar até lá. Foram eles que guiaram o explorador americano Hiram Bingham até o local, em 1911.

Machu Picchu

Machu Picchu

Em 1908, Hiram Bingham, acadêmico americano, representou os Estados Unidos no primeiro Congresso Científico Panamericano, realizado em Santiago, Chile. Na volta para os Estados Unidos, teve os primeiros contatos com regiões isoladas e até então muito pouco exploradas do interior do continente sul-americano, comandando expedições que desbravaram territórios do Brasil, da Argentina, do Chile, da Bolívia e do Peru, publicando relatos dessas expedições posteriormente.

Em 1911, então com 36 anos de idade, professor na Universidade de Yale e com o apoio da National Geographic Society, Hiram Bingham retornou ao Peru em busca da localização de outra cidade inca perdida, chamada Vilcabamba, e acabou encontrando Machu Picchu. A notícia correu o mundo.

Nos anos seguintes, Hiram Bingham conduziu os trabalhos de escavação em Machu Picchu, coletou e enviou milhares de artefatos encontrados nas ruínas para os Estados Unidos, o que gerou questionamentos do governo peruano que perduaram até hoje. Ele também escreveu vários livros sobre Machu Picchu, sendo o principal intitulado ‘A Cidade Perdida dos Incas’.

Machu Picchu

Machu Picchu

Observando as ruínas do alto fica clara a divisão entre a Machu Picchu Sagrada e Real e a Machu Picchu Mundana estabelecida em seu traçado urbano.

Plano urbano de Machu Picchu

Plano urbano de Machu Picchu

A maioria dos templos, palácios e locais de cerimônias está localizado à esquerda de quem observa. Do lado direito da praça gramada que se estende pela região central em vários níveis está o setor residencial, o setor comercial e industrial e também uma prisão.

Setor sagrado e real de Machu Picchu

Setor sagrado e real de Machu Picchu

Templo do Condor, um dos poucos que fica no setor residencial

Templo do Condor, um dos poucos que fica no setor residencial

Setor residencial, comercial e industrial de Machu Picchu

Setor residencial, comercial e industrial de Machu Picchu

Sem dúvida o que mais impressiona e estimula nossa reflexão é a dificuldade de se fazer tudo aquilo no topo de uma montanha tão íngreme e em um local de difícil acesso mesmo atualmente. Tudo isso prova que a civilização inca chegou a desenvolver uma engenharia bastante avançada.

Ruínas do setor Real

Ruínas do setor real

Ruínas do setor residencial de Machu Picchu

Ruínas do setor residencial de Machu Picchu

Os trabalhos de restauração das ruínas, que foram encontradas em estado avançado de deterioração depois de séculos de abandono, tornaram o local mais inteligível para os não arqueólogos e continuam até hoje. Desde 1983 Machu Picchu é considerado patrimônio da humanidade pela Unesco e é um dos pontos turísticos mais famosos do mundo, com todo merecimento.

Ruínas do setor residencial de Machu Picchu

Ruínas do setor residencial de Machu Picchu

São várias as teorias sobre as origens e a representatividade deste lugar para os incas. A teoria mais aceita é de que Machu Picchu era uma cidade com funções cerimoniais, servindo de retiro para a nobreza inca que ali realizava rituais religiosos e mortuários, inclusive mumificações.

Escadarias de Machu Picchu

Escadarias de Machu Picchu

Machu Picchu é a parte onde estão construídas as ruínas da cidade. A montanha mais alta que fica atrás é chamada de Wayna Picchu, que em quéchua quer dizer “montanha jovem”

Wayna Picchu

Wayna Picchu

Wayna Picchu também pode ser visitada, mas o horário é bastante restrito (se eu não me engano apenas de 07:00h até as 13:00h), é necessário comprar um outro ingresso e se registrar antes de subir. É possível subir até o topo circundando a montanha por trilhas estreitas, íngremes e cheias de degraus. Há até um túnel inca escavado na montanha. Vi fotos e relatos na internet e os caminhos são vertiginosos e beiram o abismo o tempo todo, mas sem dúvida a vista compensa. Essa caminhada dura mais de uma hora para ir e outro tanto para voltar. Tenho vontade mas, infelizmente, subir Wayna Picchu ficou mais uma vez para uma próxima.

Ruínas do setor residencial

Ruínas do setor residencial

Caminhamos bastante pelo meio das ruínas buscando captar um pouco do clima do lugar. Estar em Machu Picchu é como passear pela história. É impossível não voltar no tempo e imaginar como era a vida das pessoas ali, como tudo aquilo foi construído.

Ruínas do setor residencial

Ruínas do setor residencial

Sem dúvida Machu Picchu é o maior testemunho da prosperidade e do poder da civilização inca, além de um grande exemplo de interação harmoniosa entre o homem e a natureza.

Machu Picchu

Machu Picchu

Com a função de manter a grama aparada e adubada, simpáticas llamas ficam soltas no meio das ruínas e pulam de terraço em terraço, passando no meio dos turistas e posando para fotos à beira do abismo.

Llama de Machu Picchu

Llama de Machu Picchu

A Dani foi mexer com uma que acabou correndo atrás dela. No geral, as llamas são bastante pacíficas e é até difícil conseguir desviar a atenção delas da grama que elas não param de comer.

Machu Picchu

Machu Picchu

Uma parte também muito interessante das ruínas é o setor agrícola. São dezenas de terraços construídos nas escarpas da montanha que descem até o precipício. Esse sistema de terraços era usado para criar espaços horizontais onde as llamas eram criadas e outros alimentos, essencialmente batata e milho, eram cultivados. Plantar em terraços amenizava os efeitos erosivos das chuvas na montanha, evitando deslizamentos de terra.

Setor agrícola

Setor agrícola

Terraços do setor agrícola

Terraços do setor agrícola

No topo do setor de agricultura está uma cabana que era usada como ponto de vigilância e hoje é um excelente mirador. Quem chega à Machu Picchu pela trilha inca adentra o parque pelo caminho que acaba ao lado desta cabana, tendo a mais bonita e recompensadora das visões depois de tantos dias de caminhada.

Cabana no alto do setor agrícola

Cabana no alto do setor agrícola

Apesar de termos chegado um pouco tarde, o parque não estava lotado e pudemos passear tranquilamente entre as ruínas, admirar a paisagem e tirar muitas fotos sem aquelas multidões aparecendo. Isso porque era baixa temporada, um período em que a região geralmente está muito chuvosa. Os meses de junho, julho e agosto são bem mais movimentados.

Machu Picchu

Machu Picchu

Na primeira vez que estivemos no Peru era junho e eu e a Dani tivemos o prazer de ver esse maravilhoso lugar com céu azul. Não tínhamos certeza se desta vez teríamos a mesma sorte pois era temporada de chuvas e muitas vezes o tempo fecha e a neblina chega a cobrir tudo. Ainda bem que tudo deu certo e tivemos um bonito dia. Sentimos até um pouco de calor com tanto sol, mas nada que atrapalhasse.

Hora da despedida

Hora da despedida

No fim, só tínhamos que agradecer ter tido a oportunidade de voltar a este lugar tão bonito e que tantas lembranças boas nos traz e ainda poder trazer junto com a gente os nossos pais. Machu Picchu é um lugar único. Todo mundo deveria visitar essa maravilha pelo menos uma vez na vida. Eu costumo dizer que há lugares que as fotos não conseguem traduzir. Esse é um deles. Só estando lá, ao vivo diante daquela imensidão, para ter uma verdadeira noção do quanto é bonito. A visita dura apenas algumas horas mas nos marca para sempre. Apesar de essa já ter sido nossa segunda vez, eu e a Dani não descartamos um dia voltar. Acho que sempre vai valer a pena.

Antes de pegar o ônibus paramos na área onde há uma pequena praça de alimentação, tomamos água e refrigerantes e aproveitamos para ir ao banheiro. O parque fecha às 16:00 horas. Já era mais de 15:00 horas quando pegamos o ônibus para descer até Aguas Calientes.

No micro-ônibus, na descida de Machu Picchu

No micro-ônibus, na descida de Machu Picchu

Chegando lá embaixo fomos procurar um lugar para almoçar pois estávamos morrendo de fome. Fiquei procurando um restaurante bom que eu me lembrava que ficava bem perto do hotel onde ficamos hospedados em 2009, mas não consegui encontrar. Há muitas opções de lugares para comer em Aguas Calientes.

Enfim, nos cansamos de procurar e entramos no primeiro restaurante que apareceu, que tinha uma decoração bem “temática”. Só depois de sentar é que percebemos que ele não era dos melhores mas estávamos tão cansados e com fome que ficamos por lá mesmo.

Almoço em Aguas Calientes

Almoço em Aguas Calientes

Pelo menos fomos bem atendidos. Por causa da hora o restaurante estava vazio e logo a comida chegou e até que estava bom. O seu Chico pediu uma truta com batatas fritas, salada e arroz, a dona Dóia e a Dani dividiram uma lasanha e eu e a minha mãe uma pizza. A conta saiu por 159,50 Nuevos Soles (R$ 108,50), com refrigerantes, água e gorjeta. Saindo do restaurante encaramos a subida até o nosso hotel.

Ladeiras de Aguas Calientes

Ladeiras de Aguas Calientes

Tomamos banho e fomos descansar. Nosso dia tinha sido bastante movimentado e estávamos exaustos, mas tinha valido muito a pena. A boa notícia desse fim de dia era que o mal estar da altitude que a minha mãe estava sentindo em Cusco melhorou bastante aqui em Aguas Calientes. A má notícia era que desde lá de cima de Machu Picchu eu comecei a sentir uma certa indisposição alimentar que com o tempo só foi aumentando. Minha noite seria longa…

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Na altitude dos Andes: a capital inca e o soroche

Quinto dia. Domingo, 01 de abril de 2012.

Como eu contei no post passado, ainda no aeroporto, na sala onde pegamos a bagagem, todos começaram a sentir um pequeno mal-estar e um pouco de dor de cabeça, mas nada de mais.

Essa sensação é comum em quem vem do nível do mar e chega de avião (sem tempo para uma adaptação gradual) a lugares muito elevados, como Cusco, que fica a 3.326 metros acima do nível do mar. Nessa altitude o ar é mais raro e o organismo, que não está acostumado, demora um pouco para se adaptar produzindo mais hemácias (células que transportam o oxigênio). Enquanto essa adaptação não acontece, sentimos o mal da altitude ou, como eles chamam no altiplano andino, soroche.

A sensação ruim é causada pela falta de ar. Pequenas caminhadas, subir escadas ou qualquer outro esforço nos faz sentir um cansaço imediato. Com a falta de oxigenação, surgem dores musculares, de cabeça, enjoos e um mal-estar generalizado. Em geral, uns três dias são suficientes para uma completa adaptação do organismo. Dizem que tomar uns comprimidos chamados soroche pills ajuda mas o certo mesmo é que devemos fazer de tudo para descansar um pouco logo nas primeiras horas e evitar comidas pesadas e bebidas alcoólicas. A adaptação e a intensidade dos sintomas variam de pessoa para pessoa.

Já tinha sentido soroche na viagem de 2009, em Potosí, na Bolívia, a mais de 4.000 metros de altitude. Chegamos de noite na cidade, vindo de Sucre (que é mais baixa) de ônibus e fomos logo dormir. Estávamos cientes da possibilidade do soroche e até ficamos felizes quando chegamos e não sentimos nada (achamos até que essa história era só lari-lari). Mas aí, no meio da madrugada, eu acordei com uma dor de cabeça medonha, tonto e com muita falta de ar. Tomei vários remédios mas não consegui dormir direito o resto da noite e passei o dia seguinte todo enjoado e cansado, sem conseguir comer nada e só tomando chá e mascando as folhas secas de coca (conforme já expliquei no post passado, coca não é a mesma coisa que cocaína!). Mal conseguimos passear e meu mal-estar só melhorou quando almoçamos (lembro até hoje: pizza e coca-cola). Daí para frente eu me adaptei rapidamente.

A Dani, que debochou de mim em Potosí pois não sentiu nada por lá, passou mal alguns dias depois, já no Salar de Uyuni, a quase 5.000 metros de altitude. Deu o maior pití: chorou, pediu a mamãe e teve passamentos. Foi acudida pelo nosso guia-motorista e por nossas colegas de passeio bolivianas que estavam no carro com a gente. Ela melhorou mascando folhas de coca que o guia-motorista sempre levava com ele. Nessa viagem, seguimos de ônibus de cidade em cidade da Bolívia e do Peru e não passamos mais mal (só uma certa perda do fôlego ao subir as intermináveis ladeiras andinas). Quando chegamos em Cusco já estávamos totalmente adaptados.

Dessa vez, apesar de termos sentido um pouco os efeitos do soroche logo que chegamos, todos ficamos bem, com exceção da minha mãe. Passei praticamente a noite inteira acordado com ela. Os sintomas eram os mesmos que eu contei acima (falta de ar, dores musculares, de cabeça, enjoos e um mal-estar generalizado), só que com muita intensidade. Chegou uma hora no meio da madrugada que eu fui pedir ajuda para o pessoal da recepção.

O soroche (mal da altitude) é tão comum em Cusco que os hotéis têm até cilindros de oxigênio para o alívio mais imediato dos hóspedes que passarem mal. Ficamos sentados nos sofás da recepção por uma meia hora enquanto ela respirava com a máscara de oxigênio. Melhorou, mas não resolveu totalmente. Quando voltamos para o quarto os sintomas estavam mais fracos e ela pode descansar um pouco. Com certeza o mal-estar mais forte sentido pela minha mãe foi muito influenciado por ela ser hipertensa (e a pressão dela subiu) e também pelo fato de que ela tinha parado de fumar havia apenas 9 meses (isso depois de quase 40 anos de tabagismo!).

Pela manhã, o soroche e o fato de ela não ter dormido bem a noite toda, fez com que ela não conseguisse sair da cama e nem comer nada além de biscoitos de água e sal. Eu, a Dani e os pais dela tomamos café no hotel, que aliás era bem completo. A d. Dóia ficou no hotel vendo TV peruana e atenta para qualquer coisa que a minha mãe precisasse no quarto ao lado enquanto eu, a Dani e o seu Chico saímos para resolver o problema dos ingressos para Machu Picchu, para onde iríamos no dia seguinte.

Indo procurar ingressos para Machu Picchu

Indo procurar ingressos para Machu Picchu

Em 2009, eu e a Dani deixamos para comprar os ingressos para as ruínas de Machu Picchu no escritório do governo na cidadezinha de Aguas Calientes mesmo, nos pés da montanha de Machu Picchu, sem preocupação. Entretanto, o sistema mudou. A Unesco fez um relatório denunciando que as ruínas estavam sendo superexploradas pelo turismo e isso punha em risco o patrimônio histórico. A solução apontada foi a limitação do número de visitantes no sítio arqueológico a 2.500 por dia (para subir Wayna Picchu, a montanha icônica que é o pano de fundo das ruínas de Machu Picchu, o limite é bem menor e o horário de visitação bastante limitado).

Convento de Santo Domingo

Convento de Santo Domingo

Jardins do Qorikancha - Convento de Santo Domingo

Jardins do Qorikancha – Convento de Santo Domingo

Assim, para não correr o risco de chegar na hora de comprar os ingressos no local e o limite já ter se esgotado, ainda no Brasil procuramos o site oficial do governo peruano para a compra dos ingressos de Machu Picchu. Neste mesmo site podemos consultar quantos ingressos ainda estão disponíveis em quaisquer dos 365 dias do ano. O sistema de pagamento do site só aceita cartões Visa. O problema era a exigência do sistema de senhas Verified by Visa. Na época nossos cartões não tinham esse sistema e sem ele a compra não podia ser concluída.

Percebemos que a limitação de ingressos imposta não era muito rigorosa e que sempre sobravam muitos ingressos (no site podemos ver também quantos ingressos sobraram por dia nos últimos meses). Isso nos tranquilizou um pouco e acabamos deixando para comprar os ingressos já no Peru. E foi isso que fomos tentar fazer nessa manhã de domingo em Cusco.

Cusco

Cusco

Eu, o seu Chico e a Dani saímos pelas ruas da cidade, de agência de turismo em agência de turismo, atrás desses ingressos. Queríamos evitar deixar para comprar só no dia seguinte, já em Aguas Calientes.

Domingo de ramos na Plaza de Armas

Domingo de ramos na Plaza de Armas

A cidade estava muitíssimo movimentada. Era domingo de ramos, o domingo que antecede a Páscoa, e Cusco estava em festa, com multidões nas ruas e desfiles de grupos uniformizados.

Domingo de ramos na Plaza de Armas

Domingo de ramos na Plaza de Armas

Havia até desfiles militares.

Domingo de ramos na Plaza de Armas

Domingo de ramos na Plaza de Armas

As igrejas estavam lotadas e todos caminhavam com arranjos (ramos) nas mãos.

Domingo de ramos na Plaza de Armas

Domingo de ramos na Plaza de Armas

Esses arranjos eram feitos nas calçadas pelas tradicionais cholitas em roupas típicas e vendidos para os fiéis por preços simbólicos. Comprei um para levar para minha mãe.

Cholitas fazendo arranjos para o domingo de ramos

Cholitas fazendo arranjos para o domingo de ramos

No dia seguinte, na segunda-feira santa, justamente no dia em que iríamos à Machu Picchu, seria o dia da procissão do patrono de Cusco, o Señor de los Temblores (Senhor dos Terremotos), marcando o início da semana santa. O Señor de los Temblores é representado pela imagem de um Cristo negro crucificado e que fica guardada na Catedral da cidade. Os peruanos são muito católicos e o Señor de los Temblores é adorado no país todo, especialmente em Cusco, onde os terremotos têm provocado tantos estragos ao longo da história.

Iglesia de la Merced

Iglesia de la Merced

Iglesia de la Merced lotada

Iglesia de la Merced lotada

Voltando aos ingressos, percebemos que seria mais complicado do que parecia. Cusco é apinhada de agência de turismo por todas as partes, principalmente nos arredores da Plaza de Armas. Essas agências vendem todo tipo de pacotes mas, por ser domingo e semi-feriado, muitas dessas agências não estavam funcionando e nas outras ninguém conseguia entrar em contato com o escritório oficial do governo para comprar os ingressos.

Passamos a manhã toda nessa missão. Pelo menos serviu para passearmos pela cidade toda e ver o movimento das ruas. Mas ingresso mesmo… nada. Ficamos apreensivos, mas esperançosos de que tudo desse certo no dia seguinte, afinal, ir ao Peru e não ver Machu Picchu não seria admissível.

Voltamos para o hotel. A d. Conceição, minha mãe, já estava se sentindo melhor, mas ainda estava com cara abatida, sofrendo com os efeitos do soroche. Saímos todos para almoçar e arrastamos ela junto.

Escolhemos o Tunupa Cusco, um restaurante no segundo andar de um dos casarões históricos que circundam a Plaza de Armas. A vista da nossa mesa, no balcón, era diretamente para a Plaza de Armas e o restaurante estava bem tranquilo.

Almoço no Tunupa Cusco

Almoço no Tunupa Cusco

De entrada pedimos um ceviche grande de peixe e mariscos, para todos nós. Eu pedi arroz con pato, prato típico peruano feito com pato e um arroz muito condimentado com ervas andinas; a Dani pediu o tradicional ají de gallina; o seu Chico pediu um peixe com molho e legumes; a dona Dóia pediu uma sopa criolla; e a minha mãe, ainda passando mal com o soroche, pediu um pollo a la plancha (frango na chapa) com legumes no vapor. A conta toda saiu por 226 Nuevos Soles (R$ 153,74), incluindo refrigerantes (Inca Kola) e a propina do garçom.

Vista do restaurante

Vista do restaurante

Depois do almoço a cidade parecia muito mais calma. Saímos do restaurante e fomos finalmente visitar as duas principais joias da arquitetura colonial de Cusco: a Catedral e a Iglesia de la Compañía de Jesús, ambas na Plaza de Armas. Para entender um pouco melhor o significado das construções históricas da cidade, vale a pena saber um pouco da história de Cusco.

Estima-se que o local onde hoje está Cusco seja habitado há cerca de 3.000 anos. Entretanto, como capital do Império Inca, a cidade foi só fundada no fim do séc. XI, por Manco Capac, líder de um grupo indígena que reunia apenas 500 pessoas. O nome Cusco (ou Qosqo, em quéchua, o idioma dos incas) quer dizer umbigo. Para eles, Cusco seria o umbigo do mundo, o centro do Tahuantisuyo, como eles chamavam o Império Inca. O local onde hoje está a atual Plaza de Armas já era considerado o centro do império e era ali que ficavam alguns dos mais importantes templos e palácios da nobreza inca.

Quando os espanhóis comandados por Francisco Pizarro chegaram ao Peru, em 1532, o Império Inca já dominava os Andes, desde Quito, no Equador, até o rio Maule, no Chile, e Cusco era habitada por cerca 40 mil pessoas. O império todo tinha 12 milhões de habitantes, 3 milhões a mais do que a população da Espanha na época.

Ainda em 1532, Pizarro prendeu e executou o Inca Atahualpa, décimo terceiro e último imperador inca. Em novembro de 1533, os espanhóis auxiliados por tropas indígenas derrubaram o Império Inca, conquistando a capital, destruindo e saqueando os palácios e os templos. Sobre as sólidas fundações dos edifícios incas, os espanhóis construíram a atual Cusco, hoje com cerca de 300 mil habitantes, a maioria descendentes de indígenas ou fruto da miscigenação entre eles e os espanhóis.

Catedral de Cusco

Catedral de Cusco

A Catedral de Cusco começou a ser construída em 1559, sobre as ruínas do templo de Viracocha, o principal deus dos Incas, criador do universo e de tudo que nele existe.

Na construção da Catedral de Cusco foram usadas pedras da fortaleza de Saqsaywamán, que fica no alto dos morros no norte da cidade. Na verdade, o conjunto todo é formado por três igrejas pois de cada lado da Catedral há uma igreja menor interligada à ela. Do lado esquerdo está a Iglesia de la Sagrada Família, por onde entramos, e do lado direito está a Iglesia del Triunfo, por onde saímos.

Iglesia de la Sagrada Familia

Iglesia de la Sagrada Familia

A iglesia de la Sagrada Familia e a Iglesia del Triunfo são pequenas, mas também muito bonitas.

Já a Catedral em si é impressionante. Com um teto altíssimo apoiado em espessas colunas de pedra, a primeira característica que nos chama atenção é o enorme espaço livre dentro da Catedral. Além disso, essa igreja é muito rica, com capelas laterais cobertas de ouro e prata, muitas pinturas da Escuela Cusqueña e muitas imagens de santos. Tanto os altares destas capelas laterais quanto o altar principal são talhados em madeira, em sua maioria cedro. O entalhe do barroco andino alcançou nesta Catedral o seu nível artístico mais alto.

Na frente do altar-mor está um altar enorme de prata maciça onde está a imagem do Señor de los Temblores que já estava sendo preparada para a procissão da segunda-feira santa, no dia seguinte. Essa procissão acontece desde 1650, quando um grande terremoto atingiu a cidade e os moradores levaram o Cristo negro crucificado pelas ruas de Cusco pela primeira vez. Relatos contam que por dias a imagem de Cristo ficou em frente à Catedral, voltada para a cidade, na esperança de que os sismos subsequentes ao tremor principal parassem. E pararam. A partir daí a devoção ao Señor de los Temblores só fez crescer em todo o Peru.

Essa imagem de Cristo crucificado tem uma história interessante. Foi o próprio rei da Espanha, Filipe II, quem mandou entalhar uma imagem de Cristo e a enviar à Cusco quando foi informado que a população local mantinha a devoção ao Sol, à Lua e aos Deuses Incas. Um artista de Sevilha recebeu o encargo e logo a obra, reconhecida como de grande valor artístico, foi enviada ao Virreinato del Perú. Na viagem, os padres atribuíram ao Cristo o milagre de ter salvado o barco de uma tempestade em alto-mar. A imagem já chegou ao porto de Callao, perto de Lima, com o título de Señor de las Tormentas. No caminho para Cusco o comboio de mulas parou em uma cidade e a imagem lá ficou pois ninguém conseguiu levantá-la mais. Os moradores entenderam que era um milagre, que o Cristo queria ficar ali e uma igreja para abrigar a imagem foi construída. Uma cópia, sem muito valor estético, foi entalhada por um artesão local e enviada à Cusco. A imagem foi abrigada na Catedral sem muita pompa e de lá só saiu na procissão que pedia o fim dos tremores de terra que abalaram Cusco em 1650, sendo então rebatizada de Señor de los Temblores. Dizem que a imagem ficou negra em razão de milhares de velas que queimaram aos seus pés durante anos. O certo é que ela já foi esculpida em uma madeira mais escura para que os indígenas, com pele mais escura que os espanhóis, se identificassem com ela.

A Catedral de Cusco é cheia de detalhes. Em uma das capelas do lado esquerdo da nave central fica a imagem da Inmaculada Concepción (Nossa Senhora da Conceição) adorada e conhecida em Cusco como La Linda, por suas feições realmente muito bonitas.

Outra parte incrível da Catedral é o coro que fica bem no meio da igreja, de frente para o altar, de forma que quem entra pela porta principal não vê diretamente o altar-mor. O coro é todo entalhado em cedro e é considerado uma obra-prima do barroco andino.

O ingresso para a Catedral de Cusco custa 25 Nuevos Soles (R$ 17). É um dos ingressos mais caros da cidade, mas com certeza vale muito a pena. Pagaria até mais. Infelizmente não são permitidas fotos no interior.

Quando saímos da Catedral nos encaminhamos logo para a vizinha Iglesia de la Compañía de Jesús. Em 2009 eu e a Dani não conseguimos visitar essa igreja pois nunca conseguíamos ir no horário em que ela estava aberta.

Iglesia de la Compañía de Jesús

Iglesia de la Compañía de Jesús

A igreja começou a ser construída em 1571 pelos jesuítas (Compañía de Jesús), sobre as fundações do palácio de Huayna Capac, o décimo segundo Inca.

Entrada da Iglesia de la Compañía de Jesús

Entrada da Iglesia de la Compañía de Jesús

Cusco era tão importante para os planos jesuítas que o projeto era que a igreja da ordem na cidade fosse a mais magnífica das igrejas de Cusco. Ao saber dos planos jesuítas, o arcebispo contestou a construção sobre o argumento de que nenhuma igreja poderia ofuscar a Catedral. A discussão foi levada ao Papa Paulo III, que decidiu a favor da Catedral. Entretanto, quando a sentença papal chegou à Cusco, a grandiosa fachada barroca da Iglesia de la Compañía, entalhada em pedra, já estava pronta.

Iglesia de la Compañía

Iglesia de la Compañía

Por dentro a igreja também impressiona, com retábulos e altares entalhados em madeira que vão do chão ao teto, cobertos de ouro e acompanhados por muitas pinturas e imagens de santos. Há uma imagem do Señor de los Temblores (a que sai na procissão está na Catedral).

Altar-mor da Iglesia de la Compañía (em cima) e réplica da imagem do Señor de los Temblores (embaixo)

Altar-mor da Iglesia de la Compañía (em cima) e imagem do Señor de los Temblores (embaixo)

Podemos ainda subir por uma cambaleante e estreita escada de madeira e chegar até mais ou menos a metade da torre esquerda da igreja, onde há uma janela com uma bela vista para a Plaza de Armas.

Vista para a Plaza de Armas

Vista para a Plaza de Armas

Vista da Plaza de Armas e da Catedral a partir da torre da Iglesia de la Compañía

Vista da Plaza de Armas e da Catedral a partir da torre da Iglesia de la Compañía

O ingresso na Iglesia de la Compañía de Jesús custa 10 Nuevos Soles (R$ 6,80). Também vale muito a pena visitar essa igreja. Essas duas igrejas chamam  atenção pelo tamanho e pela localização privilegiada, mas Cusco possui tantas igrejas, conventos e monastérios históricos que é difícil até contar. Essas construções estão por toda parte, são a alma da cidade e prova de que Cusco esteve no topo das prioridades da Igreja Católica nos tempos da América Colonial. Todas essas igrejas ainda funcionam normalmente e vivem cheias de fiéis. A grande maioria está bem conservada e acredito que todas permitam visitas turísticas.

Cholitas na escadaria da Catedral

Cholitas na escadaria da Catedral

Em seguida fomos dar uma olhada em um dos detalhes mais curiosos de Cusco. Seguindo pela rua da Iglesia de la Compañía que passa ao lado da Catedral, chamada Calle Triunfo, que depois muda de nome para Calle Hatunrumiyoc, encontramos a sede do antigo Arzobispado del Cusco, que hoje abriga o Museo de Arte Religioso. Deixamos para visitar o museu outro dia e seguimos por esta rua até o meio do quarteirão, onde está a pedra dos doze ângulos.

Palácio Arcebispal de Cusco e seu muro inca

Palácio Arcebispal de Cusco e seu muro inca

Essa pedra faz parte da base da antigo palácio do Inca Roca, o sexto Inca, sobre o qual foi construído o atual Palácio Arcebispal. Nessa parede podemos ver o quanto a arquitetura inca era precisa. A pedra dos doze ângulos é famosa por ser a pedra entalhada com mais ângulos de toda a cidade.

Pedra dos doze ângulos

Pedra dos doze ângulos

Essa pedra demonstra que cada peça tinha seu lugar predeterminado antes da construção. E o encaixe é perfeito, milimétrico. As grandes pedras das construções incas se encaixam sem o uso de qualquer tipo de argamassa, formando paredes que chegam a ter mais de um metro de espessura sem que haja espaço nem para uma agulha passar entre elas.

Há sempre muitos ‘guias’ turísticos por ali ávidos para contar a história dessa pedra. Se nós pararmos para ouvir, lá se vão alguns Nuevos Soles como gorjeta. Não há necessidade de se deixar levar por eles pois é muito fácil encontrar a pedra dos doze ângulos.

Na fortaleza de Saqsaywamán, no norte da cidade, e em Machu Picchu há pedras com mais ângulos ainda. Já foi encontrada uma pedra com incríveis 44 ângulos, nas ruínas de Torontoy, sítio arqueológico que fica perto de Ollantaytambo.

Pois bem, foto tirada em frente à famosa pedra, seguimos para o hotel. Minha mãe ainda estava muito debilitada com o soroche e queria descansar. O seu Chico também ficou no hotel para o caso de ela precisar de alguma coisa. Eu, a Dani e a d. Dóia saímos para aproveitar esse resto da tarde em Cusco.

Bairro de San Blas

Bairro de San Blas

Fomos caminhando até San Blas, o bairro mais artístico da cidade. Nas ladeiras que sobem até a Igreja de San Blas estão concentradas as melhores lojas de artesanato de Cusco. Ali encontramos muitas galerias e lojas com peças de cerâmica e entalhadas em madeira, imagens de santos, presépios, roupas e tecidos típicos, joias, enfeites e objetos decorativos de todo tipo… tudo feito à mão e com muita personalidade.

Bairro de San Blas

Bairro de San Blas

Mas não há só artesanato. Em San Blas também encontramos muitas lojas que vendem verdadeiras obras de arte. A especialidade de maior qualidade é sem dúvida a pintura sacra típica de Cusco, feita desde os primeiros tempos da colônia, provando que a Escuela Cusqueña está mais viva do que nunca.

Iglesia de San Blas e as cholitas

Iglesia de San Blas e as cholitas

Há de tudo e para todos os bolsos. O difícil é escolher uma peça só diante de tantas opções. Passeamos por tudo, mas não compramos nada pois sabíamos que teríamos que voltar com a minha mãe. Foi difícil segurar a d. Dóia. Aproveitamos para ver quais eram as melhores lojas e sondar os preços que aqui sempre podem ser negociados, mas em geral já são muito bons.

Bairro de San Blas

Bairro de San Blas

Voltamos para o hotel para descansar antes do jantar. O bom de Cusco é que tudo pode ser feito à pé. As distâncias são pequenas e podemos visitar várias atrações em um único dia. Já era quase 9 horas da noite quando saímos outra vez para comer. O seu Chico preferiu ficar e pediu para levarmos alguma coisa para ele.

Iglesia de la Merced (em cima). Rua de pedestres de Cusco (embaixo)

Iglesia de la Merced (em cima). Rua de pedestres de Cusco (embaixo)

De noite Cusco fica dourada e passear sem destino é muito agradável. Fomos caminhando até a Plaza de Armas e de lá até a Plaza de San Francisco. Em 2009, eu e a Dani, ficamos em um hostel instalado em um casarão antigo que fica nessa praça.

Iglesia de San Francisco (em cima). Portal de Santa Clara (embaixo)

Iglesia de San Francisco (em cima). Portal de Santa Clara (embaixo)

Fomos até o portal de Santa Clara, que fica ali perto.

Portal de Santa Clara

Portal de Santa Clara

O frio estava apertando e resolvemos logo ir comer. Escolhemos o restaurante e pizzaria Don Marcelo, que fica na Plaza de Armas, bem ao lado da Iglesia de la Compañía.

O ambiente é de uma cantina italiana. Além de pizzas, eles servem todo tipo de massas e também carnes. A comida é boa, o ambiente aconchegante e os preços são justos. Turistas de toda a parte do mundo lotam esse restaurante.

Pizza no Don Marcelo

Pizza no Don Marcelo

Pedimos uma pizza grande, águas, refrigerantes e cafés. Fomos bem atendidos e a pizza estava muito boa. A conta saiu por 78,65 Nuevos Soles (R$ 53,50), já com os 10%. Comemos bem e por um bom preço. Recomendo.

Depois do jantar voltamos para o hotel. No dia seguinte bem cedo iríamos para Machu Picchu, onde passaríamos o dia, dormindo em Aguas Calientes e voltando para Cusco no outro dia. Ainda teríamos mais dois dias para aproveitar a capital inca.

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¡Bienvenidos a Cusco!

Quarto dia. Sábado, 31 de março de 2012.

Acordamos ainda na madrugada para que desse tempo de todo mundo tomar banho e comer alguma coisa. A bagagem já estava arrumada desde a véspera. Às 6 da manhã em ponto o porteiro interfonou avisando que o Marco, nosso motorista, já estava nos esperando na porta do prédio.

Descemos, eu deixei a chave do apartamento com o porteiro e partimos para o aeroporto. O trânsito estava ótimo pois além de muito cedo, era sábado. Em Lima os motoristas gostam de dirigir em alta velocidade, principalmente nas várias vias expressas da cidade. Em meia hora estávamos no aeroporto. Paguei o Marco (80 Nuevos Soles/R$ 54,40) e disse o horário da nossa volta à Lima daí a seis dias, para que ele nos levasse outra vez para o apartamento.

Esperando para embarcar em Lima rumo à Cusco

Esperando para embarcar em Lima rumo à Cusco

Foi o tempo de fazer o check-in e tomar um café e logo embarcamos. Em 2009, eu e a Dani chegamos à Cusco de ônibus, a partir de Puno, e de Cusco fomos à Lima de avião, pela Taca. Dessa vez pesquisamos outras opções pois as duas maiores companhias que fazem o trecho, a Taca e a LAN (que, aliás, domina os aeroportos no Peru), estavam caríssimas e desta vez seriam voos de ida e volta. Não há muitas opções de empresas que fazem esse trecho.

Pesquisando na internet, acabamos encontrando a StarPerú, uma pequena companhia peruana que estava com preços ótimos. Pelo site, parecia uma empresa confiável. Ficamos um pouco desconfiados pois não encontramos muitas referências ou relatos de outros viajantes sobre ela. Ida e volta para cada um de nós saiu por 406,18 Nuevos Soles (R$ 276,31), já com as taxas. Isso era menos da metade do que a Taca e a LAN estavam cobrando. Compramos pelo site da StarPerú, com cartão de crédito e tudo funcionou direitinho. Faltava saber se nos arrependeríamos na hora de voar.

Nosso avião era o compacto BAe 146, com turbinas (pelo preço que pagamos chegamos a pensar que poderiam ser aviões mais antigos, de hélices). Eram três poltronas de cada lado do corredor. O avião era novo, bastante confortável e espaçoso e o serviço de bordo também foi bom. A StarPerú foi uma ótima opção. Recomendo fortemente.

O voo entre Lima e Cusco dura 1 hora e 15 minutos. Chegamos às 9:15 da manhã. O aeroporto estava bastante movimentado, com gente do mundo todo chegando para conhecer a antiga capital inca. Ainda no aeroporto, na sala em que pegamos a bagagem, comentei com a Dani que estava sentindo um pouco de mal estar. Todos sentiram um pouco, mas não era nada de excepcional.

Logo um motorista nos ofereceu os serviços dele no saguão do aeroporto. Negociamos e pegamos uma van onde cabíamos todos nós, por 20 Nuevos Soles (R$ 13,60). No caminho, pela janela, eu e a Dani observamos aquela cidade da qual guardamos tantas boas lembranças. A primeira delas era o frio. Em 2009 fomos no auge do inverno e fazia um frio de temperaturas negativas em Cusco. Agora a cidade estava com clima agradável, em torno dos 16 graus e céu aberto, ideal para caminhar.

Indo para o hotel

Indo para o hotel

O aeroporto é perto do centro histórico e em 15 minutos, no máximo, estávamos em frente ao nosso hotel. Na viagem de 2009, eu e a Dani ficamos em um hostel na Plaza San Francisco. Dessa vez, como estávamos com a minha mãe e os pais dela, escolhemos um hotel melhor, bem perto do Convento de Santo Domingo.

O Taypikala Hotel Cusco é bem confortável e os funcionários são muito atenciosos e educados. Os quartos são bonitos, espaçosos, limpos e têm internet wi-fi. Por esses dois primeiros dias em Cusco pagamos 765 Nuevos Soles (R$ 520,40) por dois quartos, um triplo e outro duplo, incluindo café da manhã. Isso dá uma média de R$ 52 por dia para cada um. Nada mal para um hotel como aquele. Recomendo.

Depois dos procedimentos de check-in e de guardarmos as nossas coisas, nos servimos de um pouco de chá de coca que estava disponível no saguão do hotel. Havia também uma cestinha com algumas folhas de coca secas (parecem folhas de louro). Os próprios funcionários recomendam que a gente experimente, para evitar o mal da altitude (falarei mais sobre o mal da altitude em outro post). O chá é amarelo e um pouco amargo. As folhas são bastante amargas e estimulam a salivação. Os povos andinos tomam chá e mascam folhas de coca há séculos.

Todo mundo tomando chá de coca

Todo mundo tomando chá de coca

A coca é uma planta considerada sagrada nos Andes e sempre foi usada como energético e para amenizar os efeitos da altitude. Antes que alguém pergunte: não, não ficamos chapados ao tomar o chá ou mascar as folhas (coca não é droga!). Em todos os restaurantes e hotéis de Cusco eles oferecem o chá. É como se fosse café para eles.

Além de amenizar os efeitos da altitude e dos rigores do clima, a coca também tem poder de amenizar a fome. Uma vez eu li que quando os colonizadores espanhóis chegaram, a Igreja, em nítido conflito cultural diante do desconhecido, logo proibiu o consumo da coca entre os indígenas. Mas aí a produção nas minas de ouro e prata caiu vertiginosamente e o consumo teve que ser liberado outra vez.

A planta andina e os seus usos tradicionais acabaram ficando mal vistos por causa do espírito de porco que acrescentou um monte de outros ingredientes no extrato da planta e criou a cocaína. No Museu da Coca, em La Paz (Bolívia), eles explicam todo o processo de fabricação da droga. O que menos há na cocaína é extrato da planta natural. A maior parte é de produtos químicos.

Depois de tomar o chá era hora de sairmos para passear. O bom de Cusco é que, estando no centro histórico, tudo é perto e pode ser feito caminhando. Somente passear pelas ruas da cidade e pelos becos que mesclam a arquitetura colonial espanhola com os vestígios arqueológicos incas já é muito interessante.

Nossa primeira parada foi no vizinho Convento de Santo Domingo, que fica a uma quadra do nosso hotel.

Convento de Santo Domingo - Qorikancha

Convento de Santo Domingo – Qorikancha

Mais que um dos inúmeros conventos coloniais do Peru, esse lugar é uma síntese do que é Cusco e do que representou o encontro de duas civilizações, a europeia e a inca, cinco séculos atrás.

Todos os monges dominicanos que vinham da Espanha durante o período colonial tinham que passar por esse convento para aprender quéchua, o idioma dos incas, principalmente aqueles que tinham a missão de ensinar a doutrina cristã aos indígenas.

Claustro do Convento de Santo Domingo

Claustro do Convento de Santo Domingo

O Convento de Santo Domingo de Cusco foi fundado em 1536 pelos primeiros monges dominicanos que chegaram ao Peru. É um belo exemplo do barroco andino, estilo arquitetônico adotado por quase todas as igrejas de Cusco construídas na época. A construção europeia se deu em cima dos vestígios do principal e mais rico templo de todo o Império Inca, o Qorikancha (que em quéchua quer dizer ‘Pátio Dourado’), destruído por Pizarro quando da tomada de Cusco, a então capital do Império Inca, alguns anos antes.

O Qorikancha foi construído no séc. XV, durante o reinado do décimo Inca, Tupac Yupanqui e era considerado o centro espiritual e cerimonial do Império Inca, principal local de adoração do Deus Sol em todo o império. Relatos dão conta de que paredes inteiras eram cobertas de ouro e prata. Altares e peças sagradas representando o sol, llamas, grãos de milho, pumas, serpentes e condores eram feitas de ouro maciço. Claro que com a chegada dos colonizadores tudo foi fundido e remetido à Europa.

Neste templo eram guardados os restos mortais mumificados dos antigos Incas (na verdade só o imperador recebia o título de Inca). Para eles eram feitas oferendas de comida e bebida todos os dias, oferendas que depois eram incineradas. Também ali existia um observatório astronômico, o mais importante de todos, responsável por estabelecer o calendário e controlar as datas da agricultura, base de sustentação do império.

Há uma excelente exposição de arte sacra no interior do convento. A exposição mostra como os religiosos se utilizavam da arte como meio de evangelização dos indígenas, explicando o cristianismo por meio de imagens que muitas vezes eram influenciadas pela realidade local. Entre as muitas pinturas, esculturas em madeira e objetos litúrgicos estão várias obras da chamada Escuela Cusqueña, escola de arte criada pelos espanhóis em Cusco para produção de arte sacra nos territórios coloniais. Uma das obras mais interessantes é uma versão peruana da Santa Ceia. Na antiga pintura, além de Jesus e dos apóstolos com peles um pouco mais escuras, podemos ver muitos ingredientes locais na mesa. Batatas (que foram levadas do Peru para a Europa pelos espanhóis e depois se popularizaram pelo mundo todo), frutas típicas, o rocoto (famosa pimenta peruana) e até uma viscacha, uma parente dos coelhos que só é encontrada na América do Sul, substituindo o tradicional cordeiro pascal. Essas salas não podem ser fotografadas.

Por todo o convento vemos detalhes incríveis. Alguns tetos são ricamente decorados com pinturas e entalhes em madeira.

Pinturas decorativas no teto do convento

Pinturas decorativas no teto do convento

Ao redor do claustro vemos uma sucessão de telas que foram recentemente restauradas. Nelas é contada a história da vida de São Domingos de Gusmão, fundador da Ordem Dominicana.

Pinturas retratando a vida de São Domingos de Gusmão ao redor do claustro

Pinturas retratando a vida de São Domingos de Gusmão ao redor do claustro

Mas o que realmente diferencia esse lugar é a mescla das arquiteturas colonial e inca.

Corredores do convento

Corredores do convento

Corredores incas dentro do convento

Corredores incas dentro do convento

No magnífico claustro ainda podemos ver os vestígios originais do Qorikancha.

Vestígios das antigas construções incas dentro do Convento de Santo Domingo

Vestígios das antigas construções incas dentro do Convento de Santo Domingo

Ao redor do que hoje é o claustro ficavam os templos do trovão e do arco-íris. Essas construções, feitas com grandes pedras milimetricamente encaixadas, foram por muitos anos cobertas com argamassa e usadas como celas pelos monges dominicanos. Somente há poucos anos, durante restaurações, as estruturas originais incas foram reveladas e expostas aos visitantes. A colunata e os arcos do claustro agora ficam ao redor desses vestígios arqueológicos incas, como que dando proteção à eles. Irônico.

Ao longo desses quase cinco séculos o convento já foi abalado diversas vezes por fortes terremotos, sendo reconstruído em seguida. As estruturas incas que são a base da construção, no entanto, pouco sofreram com os tremores. O convento permanece vivo e, além da função turística, ainda abriga monges dominicanos e a igreja também funciona normalmente, com missas e tudo. Não é permitido tirar fotos do interior da igreja, que é muito bonita e rica.

No segundo andar do claustro há também uma exposição de arte moderna que parece um pouco deslocada, mas está incluída no ingresso, então demos uma olhada.

Exposição de arte moderna no Convento de Santo Domingo

Exposição de arte moderna no Convento de Santo Domingo

Atrás do convento, voltado para a Av. El Sol, está o enorme jardim, onde as fundações incas encimadas pelo barroco europeu estão bem evidentes.

Jardins do Convento de Santo Domingo - Qorikancha

Jardins do Convento de Santo Domingo – Qorikancha

Aquele espaço que hoje parece vazio era o centro do Qorikancha, onde as maiores cerimônias eram realizadas.

Jardins do Convento de Santo Domingo - Qorikancha

Jardins do Convento de Santo Domingo – Qorikancha

Nos subterrâneos deste jardim, com entrada pela Av. El Sol e ingresso comprado à parte, está o Museo del Sitio del Qorikancha, que exibe muitas peças arqueológicas do período inca e das culturas pré-incas (cerâmicas, tecidos, armas e instrumentos diversos, inclusive instrumentos cirúrgicos).

Jardins do Convento de Santo Domingo - Qorikancha

Jardins do Convento de Santo Domingo – Qorikancha

Eu e a Dani visitamos esse museu em 2009. Vale a pena. Uma das coisas que mais me chamaram a atenção na época foram crânios de soldados incas com enormes buracos feitos para aliviar a pressão criada por golpes na cabeça recebidos em combate. Alguns crânios já apresentavam sinais de regeneração e os buracos estavam quase se fechando, sinal de que o soldado sobreviveu anos após a cirurgia e prova inequívoca do avanço da medicina inca.

Convento de Santo Domingo

Convento de Santo Domingo

O Convento de Santo Domingo é um lugar muito interessante. Vale muito a pena ser visitado. O ingresso custa 10 Nuevos Soles (R$ 6,80).

Saímos do convento e continuamos passeando rumo à Plaza de Armas. No caminho encontramos duas peruanas com carneirinhos e vestidas de pastoras com coloridas roupas típicas se oferecendo para tirar fotos.

As coloridas pastorinhas

As coloridas pastorinhas

Não somos muito de ceder à estas ‘turistadas’, mas essas peruanas são tão sorridentes que não resistimos. E elas são tão simpáticas e humildes que não cobram preços fixos. Demos apenas algumas moedas e elas ficaram satisfeitas.

Aliás, essa é uma dica fundamental para quem vem a Cusco. Antes de ir temos que nos preparar para dizer ‘no, gracias‘ milhões de vezes. Há centenas de vendedores de tudo quanto é tipo (artesanato, passeios, massagens, comidas…) espalhados pelo centro histórico e inevitavelmente eles vão nos oferecer alguma coisa assim que virem nossa cara de turista. O bom é que eles não são grosseiros e sabem receber um não sem se aborrecer. Em geral eles estão vendendo alguma coisa e não apenas pedindo.

Fachada barroca do tribunal de Cusco

Fachada barroca do tribunal de Cusco

Chegando na Plaza de Armas, nos deparamos com as duas igrejas mais bonitas da cidade, a Catedral e a Iglesia de la Compañia. Deixamos para visitá-las por dentro em um outro dia.

Catedral de Cusco (em cima). Iglesia da la Compañia (em baixo). Ambas na Plaza de Armas.

Catedral de Cusco (em cima). Iglesia da la Compañia (em baixo). Ambas na Plaza de Armas.

A praça toda é rodeada por um casario antigo com colunata em baixo e os tradicionais balcones de madeira espanhóis em cima. O bom é que todos os imóveis da área estão em uso, o que ajuda na conservação deles. Há até um McDonald’s discretamente instalado em um dos cantos da praça.

Casarões do entorno da Plaza de Armas

Casarões do entorno da Plaza de Armas

A vista dos morros que rodeiam a movimentada Plaza de Armas, com sua arquitetura colonial e as torres das igrejas despontando é maravilhosa.

O entorno da Plaza de Armas

O entorno da Plaza de Armas

Deixamos para ver melhor a praça depois de comer. Já era hora de almoçar e então fomos à um restaurante onde eu e a Dani fomos várias vezes na nossa primeira viagem, o Paititi. Esse restaurante fica na Plaza de Armas mesmo, em uma das galerias de arcos que cercam a praça.

Almoço no Paititi

Almoço no Paititi

O Paititi é um restaurante pequeno que serve pizzas, comida internacional e também comida típica. Com uma localização privilegiada, o Paititi leva o nome de um antigo palácio inca que ficava ali. Segundo o garçom que nos contou a história do lugar cheio de orgulho, ali morou Sinchi Roca, filho e herdeiro do grande Manco Capac, fundador do Império Inca em Cusco, no fim do séc. XI. Algumas paredes de pedra são originais do palácio.

Comemos pratos típicos. De entrada pedimos uma causa criolla e um ceviche tradicional para dividir. Estavam deliciosos.

Ceviche (à esquerda) e causa criolla (à direita).

Ceviche (à esquerda) e causa criolla (à direita).

Como prato principal eu pedi alpaca a la cusqueña (lembra carneiro), que vem acompanhada com purê de quinoa e ervas andinas. Minha mãe, Conceição, pediu tallarines con pollo (massa com frango). A Dani pediu a trucha del lago (truta do lago Titicaca com batatas e legumes cozidos no vapor). O seu Chico pediu o típico lomo saltado (tiras de carne de boi com legumes salteados, arroz e batatas fritas). A dona Dóia pediu trucha de la mestiza (truta com molho de tomate, arroz e batatas fritas).

Sobremesas

Sobremesas

De sobremesa pedimos só uma piña nevada (abacaxi com suspiros) e uma delicia del Cusco (creme de uma frutinha típica da região tipo blueberry) para dividir. Curiosamente as entradas e as sobremesas estavam mais gostosas que os pratos principais. Bebemos Inca Kola, Coca-Cola e água. A conta toda, com a gorjeta (propina) saiu por 287 Nuevos Soles (R$ 195,23).

Saindo do restaurante fomos passear pela Plaza de Armas.

Arcos ao redor da Plaza de Armas

Arcos ao redor da Plaza de Armas

Essa praça já era o centro da capital inca quando os espanhóis chegaram e representava o centro do Império Inca. Por isso os soldados de Pizarro fizeram questão de destruir os edifícios incas dali e construir sobre suas sólidas fundações os edifícios coloniais. Esse mesmo modelo de aproveitamento das bases das construções incas foi empregado pelos colonizadores em todo o Peru.

Plaza de Armas

Plaza de Armas

O sol do meio da tarde iluminava a praça e a deixava ainda mais bonita. Segundo as previsões, pegaríamos tempo ruim em Cusco. Mas o que vimos foi um vai e vem de nuvens carregadas e até alguns chuviscos. Mas, para nossa sorte, em alguns momentos o céu ficou bem azul, então aproveitamos para tirar muitas fotos.

Dani e a Catedral (em cima). Eu e a Iglesia de la Compañia (em baixo).

Dani e a Catedral (em cima). Eu e a Iglesia de la Compañia (em baixo).

Catedral (em cima). Iglesia de la Compañia (em baixo).

Catedral (em cima). Iglesia de la Compañia (em baixo).

A praça, sempre muito florida, é o epicentro de Cusco, para onde todas as ruas se encaminham e onde acontecem todas as principais festas populares. O movimento de turistas do mundo todo anima a praça.

Plaza de Armas

Plaza de Armas

No centro da praça está a estátua de um Inca.

O Inca e a torre da Iglesia de la Merced

O Inca e a torre barroca da Iglesia de la Merced

Demos uma primeira olhada nas inúmeras lojinhas no entorno, com uma infinidade de peças de artesanato bem colorido e depois resolvemos voltar para o hotel para descansar um pouco. A minha mãe sentiu o mal da altitude começar a incomodar.

Casario na Plaza de Armas

Casario na Plaza de Armas

Plaza de Armas

Plaza de Armas

Rua no entorno da Plaza de Armas

Rua no entorno da Plaza de Armas

Passamos por compridas ruelas só para pedestres ladeadas de muros incas e coloniais.

Ruelas no centro histórico de Cusco

Ruelas no centro histórico de Cusco

Passamos outra vez pelo Convento de Santo Domingo e o vimos por outro ângulo. Uma verdadeira maravilha da arquitetura colonial.

Convento de Santo Domingo

Convento de Santo Domingo

No hotel, descansamos até anoitecer. Por volta das 8 e meia da noite nós saímos de novo. O seu Chico preferiu ficar no hotel e eu, a Dani e nossas mães fomos comer alguma coisa e dar uma olhada na cidade iluminada. Com a noite, o clima ficou muito mais frio e tivemos que por os casacos mais pesados.

A arquitetura dourada de Cusco

A arquitetura dourada de Cusco

Passamos pela Plaza de Armas outra vez e vimos as igrejas douradas. Aliás, a cidade toda fica dourada com a iluminação amarela refletindo nas construções de pedra.

Plaza de Armas e a Catedral de Cusco

Plaza de Armas e a Catedral de Cusco

Vista noturna da Plaza de Armas de Cusco

Vista noturna da Plaza de Armas de Cusco

Reparamos que a Iglesia de la Compañia estava aberta, o que não é comum à noite. Então demos uma entrada e percebemos que estava havendo um casamento. Ficamos por lá, de penetras, até a saída dos noivos e até jogamos arroz neles. Aproveitei para tirar uma foto do interior para garantir. Em 2009 não conseguimos ir à esta igreja pois nunca acertamos o horário em que ela estava aberta para visitações.

Casamento na Iglesia de la Compañia

Casamento na Iglesia de la Compañia

Em uma rua próxima à Plaza de Armas há uma famosa lanchonete chamada Yajuú! Eles preparam dezenas de variedades de sucos naturais na hora. Alguns são de frutas típicas, mas também há com as frutas mais conhecidas. Os sanduíches também são muito bons. Pedimos um suco de papaya y plátano (mamão e banana), um de lúcuma y leche (lúcuma, que é uma fruta regional parente do sapoti, e leite) e dois de fresa y leche (morango e leite). A mamãe estava um pouco enjoada (o mal da altitude estava incomodando de verdade) e pediu um queijo quente. Eu pedi um cheeseburguer e a Dani dividiu outro com a mãe dela. Estava tudo muito gostoso, com sabor caseiro. A conta saiu por 57 Nuevos Soles (R$ 38,77).

Lanche na Yajuú!

Lanche na Yajuú!

Depois de comer voltamos para o hotel. Nesse nosso primeiro dia em Cusco quisemos apenas apresentar uma visão geral da cidade para nossos pais. E que visão geral! Não há como negar que Cusco é um lugar único.

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Museu da Nação, Astrid y Gastón, Miraflores

Terceiro dia. Sexta-feira, 30 de março de 2012.

Escolhemos não fazer muita coisa neste nosso terceiro dia pois no dia seguinte embarcaríamos para Cusco e não queríamos estar muito cansados. Além disso, ainda teríamos mais alguns dias para aproveitar Lima no fim da viagem.

Tomamos café da manhã no apartamento e logo saímos. Nosso destino era o Museo de la Nación, um grande museu público com um acervo permanente que mostra as raízes pré-colombianas do país e várias exposições temporárias muito boas, sempre sobre algum tema relacionado à história ou à cultura peruana.

O Museo de la Nación fica na Av. Javier Prado Este, no bairro de San Borja, um pouco distante das áreas mais visitadas de Lima. O Metropolitano não passa perto e a melhor maneira de chegar lá a partir de Miraflores é de taxi (pelo menos até que o tren eléctrico, como eles chamam o metrô, fique pronto). Em Lima há bastante taxis e muitos deles são bem velhos. Como no Peru eles não usam taxímetro, é imprescindível negociar com o motorista antes de entrar no carro.

E mesmo sem taxímetro, andar de taxi em Lima é barato. Mais barato que na maioria das cidades do Brasil. Pegamos um taxi em frente ao nosso prédio e ele nos deixou no museu por 7 Nuevos Soles (R$ 4,76). São uns 15 minutos, a maior parte em alta velocidade pelo Paseo de la República, que é uma via expressa que liga Miraflores ao centro histórico.

O Museo de la Nación não cobra ingresso. O prédio é bem grande e abriga também outros órgãos do governo.

Museo de la Nación

Museo de la Nación

Logo que entramos fomos ver uma exposição temporária sobre a principal estrada do sistema viário do Império Inca, conhecida por Qhapaq Ñan (‘Caminho Real’ em quéchua, o idioma usado pelos incas), que ligava o território imperial de norte a sul e servia de eixo central para as estradas que iam de leste a oeste. Para integrar e garantir a segurança de um território tão grande como o do Império Inca, que ia da Colômbia, passava por Equador, Peru e Bolívia e chegava ao norte do Chile e da Argentina, um bom sistema viário era essencial. A rede de estradas incas chegou a ter mais de 30 mil km de extensão!

Exposição sobre o sistema viário inca

Exposição sobre o sistema viário inca

Alguns caminhos que conformaram o sistema viário imperial já eram utilizados por povos pré-incas e foram herdados pelos incas conforme estes iam dominando os Andes. Mas a construção dos grandes eixos, a integração entre as estradas, a melhoria na qualidade do pavimento e a grande expansão de todo o sistema é atribuída aos incas. No seu auge, a estrada principal, Qhapaq Ñan, chegou a ter 5.658 km de extensão, desde Quito, passando pela capital, Cusco, e chegando ao que hoje é a cidade de Tucumán, no norte da Argentina. É a maior obra de engenharia construída pelos incas.

Qhapaq Ñan percorria a cordilheira, alcançando mais de 5.000 metros de altitude em alguns trechos. Era toda pavimentada com pedras e tinha em média quatro metros de largura. Uma das principais funções era facilitar o tráfego das caravanas de llamas que transportavam as colheitas até os tambos, que eram armazéns imperiais e centros administrativos do império que ficavam ao longo dos caminhos que levavam até Cusco (e todos os caminhos levavam até lá). Outra função era facilitar o deslocamento das tropas incas no constante processo de expansão das fronteiras imperiais.

Durante a conquista a rede viária inca foi usada também pelos espanhóis para invadir e dominar as regiões mais distantes da costa. Há relatos históricos de que os espanhóis ficaram admirados com a qualidade, boa conservação e limpeza das estradas incas. Ainda hoje há vários trechos das antigas estradas bem preservados e em uso por comunidades tradicionais, mantendo sua ancestral função de elemento de integração política, econômica e cultural.

Um dos destaques desta exposição é a ponte Q’eswachaka. Com 28 metros de comprimento e 1,5 metro de largura, esse feito da engenharia inca atravessa o rio Apurímac, nos arredores de Cusco. Esta é a mais importante representante de tantas outras pontes do sistema viário inca. Na sua maioria, as pontes incas eram pênseis, de madeira ou flutuantes, muitas vezes feitas de fibras vegetais, o que fazia com que precisassem de constante manutenção. Poucas eram de pedra devido à geografia escarpada dos cânions da cordilheira e também devido aos terremotos que sempre assolaram os Andes.

Exposição sobre a ponte Q'eswachaka

Exposição sobre a ponte Q’eswachaka

O que diferencia a ponte Q’eswachaka das outras é o seu ritual de renovação, que se mantém inalterado desde a época dos incas e dura quatro dias. Reconhecido como patrimônio cultural peruano, o ritual começa com oferendas de folhas de coca, comidas e dinheiro à Pachamama, a deusa terra-mãe dos Incas.

Oferenda Inca à Pachamama

Oferenda Inca à Pachamama

Um documentário sobre o ritual estava passando no museu. No primeiro dia as mulheres das comunidades locais trançam as fibras de ichu, uma planta da região, criando as grossas cordas principais da nova ponte. No segundo dia a ponte antiga é desprendida das bases de pedra nas margens e cai no rio, sendo substituída pelas novas cordas. No terceiro dia a estrutura do piso e das laterais é trançada por duas equipes que, no fim, se encontram no meio da ponte. O quarto dia, um domingo, é só de festejos, com comidas e danças típicas. O ritual é minuciosamente regrado e acontece da mesma maneira há mais de cinco séculos, um símbolo de trabalho colaborativo e de união entre as comunidades locais que acontece todos os anos, na segunda semana de junho.

Estudantes no Museo de la Nación

Estudantes no Museo de la Nación

Em seguida passamos a outra exposição temporária. Ainda no Brasil eu tinha lido uma reportagem na Folha de São Paulo contando que arqueólogos peruanos tinham achado covas com diversos corpos sepultados cerimonialmente. Examinando os esqueletos foi comprovado que se tratava de líderes da grande rebelião inca ocorrida em 1536, quando Manco Inca, o imperador, atacou Cusco então tomada pelos espanhóis e ordenou que suas tropas atacassem também a recém fundada Ciudad de los Reyes (Lima), numa tentativa de expulsar os espanhóis e retomar o Império Inca.

Por meio de exames foi comprovado que os buracos nos crânios foram feitos por balas. Trata-se do primeiro registro de uso de arma de fogo nas Américas.

Crânios com marcas de ferimentos por arma de fogo

Crânios com marcas de ferimentos por arma de fogo

Mesmo em superioridade numérica e conhecendo bem o terreno, os incas perderam a batalha em Lima e a rebelião fracassou. Foram milhares de mortos. Na mesma exposição podíamos ver exemplos das armas usadas pelos incas na época. Eles gostavam muito das maças, peças feitas em pedra que eram encaixadas em um cabo de madeira. Os soldados incas usavam essa arma para golpear os adversários, especialmente na cabeça.

As armas dos incas

As armas dos incas

Seguimos para ver parte da coleção permanente do museu. Há várias salas com objetos em cerâmica inca e das culturas pré-incas.

Exposição de cerâmicas incas e pré-incas

Exposição de cerâmicas incas e pré-incas

Diferente dos espanhóis, os incas empregavam um método de conquista que não buscava submeter os povos vencidos, mas sim absorvê-los. A cultura, as técnicas, as comidas e as tradições dos povos pré-colombianos chavín, nazca, chimú, mochica, tiwanaku e tantos outros que dominaram regiões andinas foram, mais tarde, sintetizadas pelos incas. Os descendentes destas culturas foram integrados ao Império Inca sem abandonar totalmente os valores ancestrais.

Além das cerâmicas pré-colombianas, há também exposição de têxteis dessas mesmas culturas. No Peru, ainda hoje podemos ver por toda parte a imensa variedade de padronagens dos tecidos fabricados artesanalmente da mesma forma que eram feitos há séculos atrás. Fibras vegetais e, claro, a lã da llama (ou alpaca) são as matérias-primas principais.

Exposição de têxteis

Exposição de têxteis

Mesmo depois dos séculos de exploração colonial, restaram algumas peças de ourivesaria antiga em território peruano. O trabalho com ouro esteve presente no período inca e em praticamente todas as culturas pré-incas, demonstrando o avanço dessas culturas no manejo dos metais.

Exposição de ourivesaria

Exposição de ourivesaria

Já desde essa época o ouro era usado como forma de distinção e nobreza. Peças de ouro adornavam os mais importantes líderes e também serviam como oferenda aos deuses e aos mortos.

Exposição de ourivesaria

Exposição de ourivesaria

Seguindo na exposição permanente, chegamos à parte em que estão as pinturas do período colonial. A maior parte tem temática cristã mas nem tudo foi trazido da Europa. Muitas obras são de autoria das escolas de artes que foram criadas nas mais importantes cidades coloniais, como a Escuela Cusqueña, a Escuela Limeña, a Escuela Quiteña… Nessas escolas não era valorizada a autoria pessoal. A maior parte das obras era de autoria coletiva. Alguns artistas se especializavam em pintar as roupas, outros em pintar as pessoas, o cenário, os detalhes dourados.

Pinturas e gravuras do período colonial

Pinturas e gravuras do período colonial

No museu também podemos ver uma série de gravuras feitas na época inicial da colonização e que eram enviadas à Espanha como testemunho do que eram as culturas locais.

Instrumentos musicais e adornos para festas típicas

Artesanato, instrumentos musicais e adornos para festas típicas

Mais adiante temos a seção das riquíssimas tradições folclóricas peruanas. Com tanta história e tradições ancestrais, não podia ser diferente. Cada canto do país, a menor das comunidades, possui uma festa típica, um instrumento musical e um tipo de artesanato próprio. A variedade é enorme e tudo é sempre muito colorido.

Artesanato peruano

Artesanato peruano

Por fim, chegamos à parte da pintura moderna. Explorando o mundo peruano, as imagens do povo simples, as paisagens naturais do país, essas obras também são muito bonitas.

Pintura peruana moderna

Pintura peruana moderna

Quando achamos que tinha terminado, topamos com uma exposição de fotografias sobre os trabalhos da Comissão da Verdade e Reconciliação. Essa comissão, presidida por ninguém menos que Mario Vargas Llosa, escritor peruano prêmio nobel de literatura, foca o período em que o movimento guerrilheiro Sendero Luminoso, uma dissidência radical do Partido Comunista do Peru, atuou no país. Com origens na região de Ayacucho, o Sendero Luminoso foi uma das maiores organizações terroristas da América Latina.

Além de revelar muitos detalhes históricos não conhecidos por grande parte população, a comissão buscou mostrar o quanto esse período de extremismo prejudicou o país, atrasando o desenvolvimento econômico e social peruano.

Exposição sobre os trabalhos da Comissão da Verdade e Reconciliação do Peru

Exposição sobre os trabalhos da Comissão da Verdade e Reconciliação do Peru. Camponeses pobres foram assassinados pelo Sendero Luminoso e as forças armadas do país armaram e treinaram a população rural para se defender dos guerrilheiros.

Esse movimento guerrilheiro adotou a linha maoísta do comunismo (a mesma linha adotada no Brasil pela guerrilha do Araguaia) e começou a atuar nas áreas rurais do país na década de 1960. No início, recebeu apoio das comunidades locais que acreditaram nas promessas de melhoria de vida e justiça social.

Com o tempo os camponeses começaram a sofrer com a visão dogmática e totalitária do grupo que, adotando a luta armada como forma de atuação, chegou ao extremo de aprisionar populações inteiras das áreas de selva e de montanha por mais de uma década, submetendo-as a trabalhos forçados, alimentação insuficiente, doutrinação obrigatória, confisco de terras e bens. Quem não concordasse era simplesmente assassinado. Tudo em nome da ‘revolução’ que, segundo eles, deveria ser apoiada pelos próprios camponeses.

Bloqueio de estrada com pedras realizado pelos guerrilheiros

Bloqueio de estrada com pedras realizado pelos guerrilheiros

Algumas comunidades foram dominadas pelo medo e não tiveram forças para resistir. A Comissão da Verdade e Reconciliação apurou um dos mais trágicos casos em que o Sendero Luminoso atacou um vilarejo chamado Lucanamarca, acusado de ser ‘contrarrevolucionário’. Os guerrilheiros mataram 69 pessoas, inclusive mulheres e crianças, com crueldade, se utilizando apenas de machetes e canivetes.

Guerrilheiros homenageiam o líder do Sendero Luminoso, Abimael Guzmán, dentro de um presídio de Lima

Guerrilheiras homenageiam o líder do Sendero Luminoso, Abimael Guzmán, dentro de um presídio de Lima

Já na década de 1980, percebendo a gravidade da situação, o governo resolveu intervir declarando estado de emergência nas regiões então controladas pelo Sendero Luminoso e enviando as forças armadas para a região. Despreparadas, as forças armadas também cometeram excessos contra camponeses suspeitos de participar ou colaborar com a guerrilha.

O Sendero Luminoso chegou às cidades, inclusive Lima, atuando da mesma forma, com violência desmedida. Atentados com carros-bomba tiveram como alvos vários prédios públicos, incluindo o Tribunal de Justicia (o STF deles) e o Palacio del Gobierno (onde mora o presidente), além de edifícios comerciais do movimentado centro da capital peruana. O Sendero Luminoso também atacou o sistema elétrico e durante anos provocou blecautes pelo país. Nem mesmo as localidades mais nobres de Lima, como San Isidro e Miraflores, conseguiram escapar dos atentados.

Atentados terroristas em Lima

Atentados terroristas em Lima

O país viveu um clima de guerra civil por mais de 10 anos e regiões inteiras sofreram com a paralisia da economia. Nesse período, outros grupos esquerdistas radicias surgiram, como o Movimento Revolucionário Tupac Amaru, rival do Sendero Luminoso e que também se utilizava do terrorismo. Os governantes e as forças armadas responderam tentando combater os guerrilheiros e preenchendo o vazio de governo que existia nas regiões mais remotas e pobres do país, onde esses grupos tinham facilidade de atuar.

Forças armadas ensinando os símbolos pátrios às crianças camponesas

Forças armadas ensinando os símbolos pátrios às crianças camponesas

A população, tanto rural quanto urbana, cansada da  violência também se mobilizou contra a violência e o governo forneceu armas e treinamento aos comitês civis de auto-defesa para que eles ajudassem a combater os guerrilheiros.

Protestos populares contra as guerrilhas

Protestos populares contra as guerrilhas

Em meados dos anos 1990, já no governo autoritário e militarizado de Alberto Fujimori, que foi eleito com o discurso de combate às guerrilhas, os principais líderes do Sendero Luminoso, entre eles o seu fundador, Abimael Guzmán, foram presos e o grupo perdeu quase todo seu poder de atuação. Mesmo assim, o Sendero Luminoso não deixou de existir. Seus últimos grandes atos de terrorismo foram um ataque à bomba na embaixada americana em 2002, que matou dez pessoas e feriu dezenas de outras, e o sequestro de funcionários argentinos de um gasoduto na região de Ayacucho, em 2003. Outros incidentes menores no interior do país foram assumidos pelo grupo, mas o governo tem conseguido controlar a situação, prendendo, julgando e condenando os culpados e a guerrilha está praticamente extinta.

Segundo o relatório final da Comissão da Verdade e Reconciliação, o número de mortos em decorrência da atuação das guerrilhas e do combate governamental à elas chegou a 69.280 pessoas. Pelo menos 54% dessas pessoas foram vítimas diretas do Sendero Luminoso. O relatório também aponta que ações repressivas e autoritárias sistemáticas do governo, por meio da polícia e das forças armadas, podem ser configuradas como crimes contra a humanidade. Além de consequências econômicas, esse período da história peruana causou profundos traumas na consciência coletiva do país.

Museo de la Nación

Museo de la Nación

Passamos a manhã inteira no museu e saímos satisfeitos. Valeu a pena visitá-lo. Em 2009, eu e a Dani tínhamos ido lá e havia outras exposições também muito boas. Recomendo.

Era hora de almoçar. E o plano era ir ao Astrid y Gastón, o restaurante do internacionalmente renomado chef peruano Gastón Acurio.

Na frente do museu resolvi pechinchar e acabamos pegando um taxi caindo aos pedaços e com um motorista meio maluco, mas muito simpático. O velho, já todo desdentado, nos contou toda a vida dele aos gritos, mas sempre fazendo piadas. Ele brigava com todos os motoristas que chegavam perto e o pior é que todos respondiam com bom humor. Isso tudo a 100 km/h na via expressa! O pessoal do banco de trás já estava ficando tenso… No fim, com pena da filha e da esposa doente dele, acabamos dando mais do que o negociado (eram 7 Nuevos Soles/R$ 4,76, mas acabando pagando 10 Nuevos Soles/R$ 6,80).

Chegamos no restaurante, que fica em Miraflores, na Calle Cantuarias quase esquina com a Calle Alcanfores, por volta de 13:30 horas. O restaurante elegante, mas simples, estava cheio.

A simplicidade do Astrid y Gastón de Lima

A simplicidade do Astrid y Gastón de Lima

O Astrid y Gastón Lima já foi considerado um dos 50 melhores restaurantes do mundo. Formado em Direito, o chef Gastón Acurio abandonou a carreira jurídica e foi estudar gastronomia na França. Ficou famoso internacionalmente por aliar a comida e os ingredientes tradicionais peruanos à técnica da haute cuisine francesa, chegando a estrelar programas de TV, como o Master Chef Peru, transmitido pelo Discovery TLC. Juntamente com sua esposa, Astrid, Gastón já tem restaurantes espalhados por toda a América Latina e Estados Unidos. A rede Cebichería La Mar, que tem uma unidade em São Paulo, também é dele.

Assim como em Santiago, quando comemos pela primeira vez no Astrid y Gastón, aqui em Lima também fomos muito bem atendidos. Pedimos a mais típica bebida peruana, o pisco sour (aguardente de uva com suco de limão, açúcar, clara de ovos e angostura). De entrada, além do couvert de pães e molhinhos variados, pedimos uma seleção de três ceviches e também um Cuy pekinés, o tradicional porquinho da índia peruano preparado como um pato de pequim. Delicioso.

Almoço no Astrid y Gastón

Almoço no Astrid y Gastón

Como prato principal pedimos dois Pez de altura que parece mantequilla, um Pez de roca, um Cabrito lechal e um el Pato en su garbanzal. É difícil descrever os pratos pois os ingredientes típicos, a maneira de fazer e os nomes que eles dão em espanhol são únicos. Tivemos que interrogar o garçom que, pacientemente, explicou tudo. É engraçado como eles descrevem os pratos no cardápio. Por exemplo, o Cuy pekinés está descrito assim: ‘Cansado de ser desprezado pelo mundo, o cuy decide se disfarçar de pato de Pequim e se vestir de rocoto e panquecas de chicha. E todo mundo aplaudiu’.

Almoço no Astrid y Gastón

Almoço no Astrid y Gastón

No fim, eles colocaram na mesa uma caixinha com gavetas cheia de pequenos alfajores de biscoito com doce de leite e outros docinhos, como cortesia. Os pratos não são muito grandes e os preços são acima da média para os padrões peruanos, mas é tudo muito gostoso. A conta, incluindo águas, refrigerantes e o serviço saiu por 665,75 Nuevos Soles (R$ 452,89).

Saímos do restaurante e fomos caminhando por Miraflores. Logo encontramos uma livraria da rede Ibero Librerías e entramos. Comprei alguns livros, incluindo um da história do Peru, e logo saímos para passear pelo Parque Central de Miraflores que ficava logo em frente.

Parque Central de Miraflores

Parque Central de Miraflores

Esse parque é cercado e muito florido, limpo e bem cuidado. Aliás Miraflores toda é uma região muito bem cuidada da cidade.

Parque Central de Miraflores

Parque Central de Miraflores

Interessante foi notar a quantidade de gatos espalhados entre as plantas.

Parque Central de Miraflores

Parque Central de Miraflores

Uma senhora nos disse que há anos um senhor abandonou o gato de estimação ali e o gesto foi repetido por vários outros donos de gatos. A vizinhança começou a alimentá-los e a população de gatos do parque só fez crescer.

Parque Central de Miraflores

Parque Central de Miraflores

Logo ao lado do parque estão a iglesia de la Medalla Milagrosa e o prédio da Municipalidad Distrital de Miraflores.

Iglesia de la Medalla Milagrosa (em cima) e o prédio da Municipalidad Distrital de Miraflores (abaixo).

Iglesia de la Medalla Milagrosa (em cima) e o prédio da Municipalidad Distrital de Miraflores (abaixo).

Esse dia também foi para ver as lojas de departamento. Primeiro demos uma olhada na enorme loja da Saga Falabella do Óvalo, uma praça circular que fica ali perto. Os produtos eram bons, mas os preços não estavam muito melhores que no Brasil.

Saga Falabella do Óvalo

Saga Falabella do Óvalo

Então seguimos até a Ripley da Calle Schell. A Ripley é uma rede de lojas de departamento chilena muito boa. Eles tem de tudo. A variedade e a qualidade dos produtos são acima da média. Mas aqui em Lima não achamos os preços muito diferentes dos do Brasil.

Ripley da Calle Schell

Ripley da Calle Schell

Eu comprei só um casaco verde escuro por 129 Nuevos Soles (R$ 87,75). A minha mãe comprou umas blusas, a Dani e a mãe dela também compraram algumas peças. Ficamos de voltar depois para dar mais uma olhada.

Seguimos então para o supermercado Vivanda que fica na esquina da Av. Benavides com a Calle Alcanfores. Ali compramos mais algumas coisas para lanchar à noite e para o café do dia seguinte. Do supermercado fomos caminhando sete quarteirões até o nosso apartamento.

Nosso dia terminou cedo, por volta das 6 da tarde. E ainda deu tempo de dar uma descansada antes do jantar. Enquanto todos cochilavam eu aproveitei para ligar para o Marco, o motorista da van que nos trouxe do aeroporto até o apartamento quando chegamos. Combinei de ele vir nos apanhar às 6 horas da manhã pois nosso voo para Cusco era às 8 horas. E assim ficou garantido que todos nós cinco íamos para o aeroporto com conforto, juntos em um mesmo carro e pelos mesmos 80 Nuevos Soles (R$ 54,40) da primeira vez.

Em seguida eu saí rapinho para trocar uns dólares por Nuevos Soles na casa de câmbio do Larcomar. Fui e voltei à pé em menos de meia hora. Mais tarde nós lanchamos, arrumamos a bagagem e fomos dormir pois o dia seguinte começaria cedo.

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La Ciudad de los Reyes

Segundo dia. Quinta-feira, 29 de março de 2012.

Acordamos não muito cedo, mas descansados e bem dispostos para passear. Tomamos café no apartamento mesmo. Ali nos sentíamos em casa. Logo estávamos na rua, rumo ao centro histórico de Lima.

Miraflores, na verdade, é um município autônomo e oficialmente não faz parte de Lima apesar de estar integrado como se fosse um bairro. Pegamos o Metropolitano bem em frente ao nosso prédio, no Paseo de la República com a Av. 28 de Julio (1,50 Nuevos Soles/R$ 1,02 cada passagem), e seguimos por 11 estações até a estación central, a maior estação do Metropolitano e a única que é subterrânea.

Estação Central do Metropolitano de Lima

Estação Central do Metropolitano de Lima

Subindo, saímos bem no meio do Paseo de los Héroes Navales, uma praça que fica no início do centro histórico. Esta praça, contínua à Plaza Grau, homenageia os maiores heróis da marinha de guerra peruana, como o Almirante Grau, que foi o comandante da marinha durante a Guerra do Pacífico (1879-1883).

Paseo de los Héroes Navales com o edifício Rímac ao fundo (em cima) e o grandioso Tribunal de Justicia (embaixo)

Paseo de los Héroes Navales com o edifício Rímac ao fundo (em cima) e o grandioso Tribunal de Justicia (embaixo)

Nesta praça está o enorme Palacio de Justicia, sede da Corte Suprema peruana, e o edifício Rímac, um prédio em estilo francês construído no início do séc. XX, em uma época de grandes transformações urbanísticas e arquitetônicas em Lima.

Tribunal de Justicia (em cima). Monumento ao Almirante Grau (embaixo)

Tribunal de Justicia (em cima). Monumento ao Almirante Grau (embaixo)

No entorno do Paseo de los Héroes Navales também estão o Museo de Arte Italiano e o Museo de Arte de Lima, mas acabamos não visitando nenhum dos dois pois decidimos dar preferência para seguir pelo centro histórico em direção à Plaza Mayor. Seguindo pelo Paseo de los Héroes Navales chegamos ao Jirón de la Unión, uma tradicional rua do centro de Lima, e logo chegamos à Plaza San Martín.

Plaza San Martín

Plaza San Martín

Esta grande praça, também construída no início do séc. XX, é rodeada por um conjunto harmonioso de edifícios em estilo neocolonial, quase todos brancos. No centro, em um alto pedestal, está a estátua equestre do General José de San Martín, líder da independência argentina que também liderou a independência do Peru, em 1821.

Seguimos pelo Jirón de la Unión até o trecho pedestralizado.  Atualmente uma rua de comércio popular, o Jirón de la Unión já foi um centro de comércio voltado para as elites limeñas mais ricas dos anos iniciais do período republicano. As fachadas elegantes são testemunhas desta época áurea, quando os mais luxuosos cafés, restaurantes, joalherias e lojas de produtos importados do país estavam ali.

Jirón de la Unión

Jirón de la Unión

O Jirón de la Unión concentra prédios com arquitetura da época republicana mas, em geral, as ruas do centro histórico de Lima são tomadas por prédios de arquitetura colonial, muitas delas com portais de pedra e varandas de madeira (os famosos balcones) nas fachadas. Essas casonas históricas, muitas delas construídas na época da fundação da cidade no séc. XVI pelos primeiros colonizadores espanhóis, estão por toda parte. Algumas estão abertas ao público e, ao entrar, é quase certo encontrarmos um pátio interno, típico das construções coloniais espanholas.

Um lado positivo da estagnação econômica que o país viveu durante anos foi a relativa preservação do conjunto arquitetônico do centro antigo de Lima, que acabou sendo poupado da especulação imobiliária e da descaracterização por demolições e construções novas, como é comum nos centros históricos das cidades brasileiras.

É perceptível que o centro antigo de Lima já está colhendo os frutos do bom momento econômico que o país está passando. Menos de três anos depois, eu e a Dani notamos uma grande melhoria na área em relação a 2009, quando estivemos em Lima pela primeira vez. Na época havia muitos moradores de rua, lixo acumulado e uma grande concentração de pequenas fábricas que deixavam a região com um aspecto meio decadente. As vezes tínhamos até uma certa sensação de insegurança.

Ainda em 2009 eu lembro de ter visto placas da Municipalidad de Lima anunciando o remanejamento dessas pequenas fábricas do centro histórico. Agora as ruas estavam muito mais limpas, as calçadas estavam todas novas e até os prédios históricos pareciam melhor conservados. Essa revitalização está dando novos ares ao centro histórico de Lima e reforçando a sua natural vocação turística.

Ainda seguindo pelo Jirón de la Unión, na direção da Plaza Mayor, chegamos à Iglesia de la Merced.

Iglesia de la Merced

Iglesia de la Merced

O que primeiro chama a atenção nesta igreja com apenas uma torre, é a intrincada fachada barroca toda entalhada em pedra. No nicho central está Nuestra Señora de la Merced, padroeira das forças armadas peruanas.

Interior da Iglesia de la Merced

Interior da Iglesia de la Merced

A construção da Iglesia de la Merced, no mesmo lugar onde foi celebrada a primeira missa em Lima, começou em 1535, logo da chegada da Ordem dos Mercedários que vieram catequizar os indígenas. A primeira igreja era pequena e de madeira mas logo foi substituída por uma maior, de alvenaria. Como quase todas as construções históricas de Lima, a igreja foi reconstruída algumas vezes em razão dos terremotos que de tempos em tempos arrasavam a cidade. A maior parte do que vemos hoje é fruto da reconstrução de 1687 e há vários outros acréscimos posteriores.

Interior da Iglesia de la Merced

Interior da Iglesia de la Merced

Por dentro a igreja é também cheia de detalhes, pinturas e esculturas. Os altares e as capelas laterais são cobertos de ouro. O povo peruano é bastante católico e os preparativos para a semana santa que se aproximava deixavam a igreja ainda mais movimentada. Os andores com Cristo carregando a cruz e Nossa Senhora das Dores já estavam preparados para a procissão. Não há cobrança de ingresso para entrar na igreja.

Jirón de la Unión

Jirón de la Unión

Saindo da igreja continuamos pelo Jirón de la Unión e logo chegamos ao nosso destino, a impecável Plaza Mayor.

Plaza Mayor

Plaza Mayor

Desde a conquista espanhola do Império Inca este é o centro do país. O plano do Rei Carlos I para a fundação de cidades no Novo Mundo exigia que o traçado das ruas fosse ortogonal e que no centro de tudo estivesse uma grande praça que fosse rodeada pelos mais importantes edifícios do governo e da Igreja. Pizarro cumpriu as ordens fielmente.

Plaza Mayor com a Catedral, o Palacio del Gobierno, casarões em estilo neocolonial e a Municipalidad de Lima

Plaza Mayor com a Catedral, o Palacio del Gobierno, casarões em estilo neocolonial e a Municipalidad de Lima

Em volta da Plaza Mayor estão a Catedral de Lima, o Arcebispado, o Palacio del Gobierno (onde o presidente mora e trabalha), a Municipalidad (prefeitura) de Lima e outros prédios em estilo neocolonial espanhol pintados de amarelo e com enormes balcones em cedro que formam um conjunto arquitetônico sem igual.

A Plaza Mayor foi o lugar de fundação de Lima pelo conquistador espanhol Francisco Pizarro, em 18 de janeiro de 1535. Como estava próximo ao dia de reis, Pizarro batizou a cidade com o nome de ‘Ciudad de los Reyes’.

Plaza Mayor

Plaza Mayor

Logo a Ciudad de los Reyes se tornou a capital do Virreinato del Perú, vivendo tempos de glória como a mais importante cidade dos domínios coloniais espanhóis na América.

Plaza Mayor

Plaza Mayor

O atual nome da capital peruana vem do rio que a corta, o Rímac, que teve várias grafias diferentes em espanhol, derivadas do seu nome em línguas indígenas. Uma dessas grafias era ‘Limac’, que evoluiu para ‘Lima’ e acabou predominando como nome da cidade. O nome ‘Peru’ tem origens semelhantes, derivando do nome de um rio da região.

Originalmente o território do Virreinato del Perú abarcava quase toda a América do Sul. Na prática excluía-se tão somente o Brasil, que era português. Com o tempo o Virreinato del Perú foi dividido e deu origem ao Virreinato del Río de la Plata (ao sul) e ao Virreinato de Nueva Granada (ao norte). Mesmo assim, o Virreinato del Perú foi, desde o princípio da colonização até o séc. XIX, a principal possessão espanhola no Novo Mundo, sendo a principal fonte de riquezas da coroa.

A ligação do Virreinato del Perú com a coroa espanhola era tão forte que o Peru foi o último bastião fiel à monarquia na América do Sul e sua independência só aconteceu depois da intercessão dos generais libertadores José de San Martín (vindo do sul) e Simón Bolívar (vindo do norte).

Plaza Mayor com o Palacio del Gobierno ao fundo

Plaza Mayor com o Palacio del Gobierno ao fundo

Quando chegamos à praça já era quase a hora da troca da guarda do Palácio Presidencial, e muita gente já estava se aglomerando ara assistir. Lá fomos nós também. Em 2009 eu e a Dani já tínhamos visto a cerimônia, que é bem interessante, com direito a banda, marcha e uniformes especiais.

Plaza Mayor e o Palacio del Gobierno

Plaza Mayor e o Palacio del Gobierno

Cerimônia de troca da guarda no Palacio del Gobierno

Cerimônia de troca da guarda no Palacio del Gobierno

A troca da guarda acontece todos os dias, ao meio-dia, no pátio do Palacio del Gobierno. Vimos a maior parte da cerimônia mas, diferentemente de 2009, agora o clima estava um pouco mais quente e nós então nos encaminhamos para a Catedral.

Catedral e o Arcebispado de Lima

Catedral e o Arcebispado de Lima

A Catedral de Lima é enorme, proporcional à importância que Lima tinha nos tempos coloniais. Na fachada, um trabalho excepcional de entalhe em pedra em estilo renascentista. Para completar, logo ao seu lado está o também muito bonito Arcebispado de Lima com grandes balcones de madeira talhada. A atual catedral é a terceira igreja construída nesse mesmo local.

Dani e a Catedral de Lima

Dani e a Catedral de Lima

A primeira capela foi inaugurada ali em 1540, em um terreno doado pelo próprio Pizarro, onde existia um templo Inca. Em 1541 o Papa Paulo III mandou instalar o bispado na cidade e cinco anos depois elevou o bispado a Arquidiocese, reconhecendo a importância que a capital do Virreinato del Perú já tinha na época.

Em 1551 foi inaugurada a segunda igreja, mas logo essa também se tornou pequena e em 1584 começaram as obras da atual catedral, inaugurada em 1622. As torres só foram erguidas em 1797 e, desde lá, outros acréscimos e reconstruções em razão dos vários terremotos que atingiram o Peru foram feitos.

A Catedral de Lima é uma mescla de estilos, refletindo a evolução da arquitetura que a cidade vivenciou nos últimos quinhentos anos: neoclássico, neocolonial, renascentista, barroco, gótico-isabelino. O melhor é que o conjunto acabou ficando bastante harmonioso.

Nave central da Catedral de Lima

Nave central da Catedral de Lima

O ingresso na Catedral de Lima custa 10 Nuevos Soles (R$ 6,80). Por dentro ela também é muito bonita. O teto é muito alto e com abóbadas góticas que representam um céu estrelado. Não parece, mas o teto é todo de madeira, com o intuito de aliviar o peso e evitar danos com futuros terremotos.

Logo à direita de quem entra está uma das partes mais interessantes da Catedral: a cripta com os restos mortais do conquistador Francisco Pizarro que é toda decorada com mosaicos venezianos representando cenas da chegada dos espanhóis ao Peru.

Cripta de Francisco Pizarro

Cripta de Francisco Pizarro

Essa cripta foi construída em 1891 para receber os supostos restos mortais de Pizarro, que foi assassinado em Lima, em 1541. Em 1977, durante uma reforma na catedral foram encontrados dentro de uma das paredes uma urna com os verdadeiros restos mortais de Pizarro. Comprovada a autenticidade por exames modernos, em 1985 os restos mortais do conquistador foram finalmente depositados no sarcófago guardado por um leão adormecido.

Cripta de Francisco Pizarro

Cripta de Francisco Pizarro

Nas laterais da catedral há mais de dez outras capelas, todas diferentes e ricamente decoradas com imagens, retábulos e pinturas.

Capelas laterais da Catedral de Lima

Capelas laterais da Catedral de Lima

Capelas laterais da Catedral de Lima

Capelas laterais da Catedral de Lima

O altar maior é talhado em madeira recoberto de ouro e prata. Na primeira vez que eu estive nessa catedral ouvi um guia dizendo para um grupo de turistas que o altar original era de prata maciça mas teve que ser vendido para financiar uma das reconstruções da catedral em razão de um grande terremoto. Ao redor do altar maior está um gigantesco coro talhado em cedro com imagens de santos que é considerado uma peça única no mundo.

Altar Mayor

Altar Mayor

Embaixo do altar maior está uma outra cripta com os restos mortais dos arcebispos de Lima e dos Vice-reis do Peru que eram enterrados na catedral. Outros corpos não identificados também foram enterrados na catedral na época em que Lima não tinha cemitérios e hoje os crânios estão expostos arrumadinhos. É um negócio bem ‘diferente’ de ver.

Cripta nos subterrâneos da Catedral

Cripta nos subterrâneos da Catedral

O ingresso também dá direito a visitar o Museu de Arte Religioso de la Catedral de Lima, que fica anexo. Nesse museu, que não é muito grande mas tem um acervo muito bom, estão muitas peças de arte colonial da chamada Escuela Limeña.

Salas do Museo de Arte Colonial de la Catedral de Lima

Salas do Museo de Arte Religioso de la Catedral de Lima

Na época da colonização foram instaladas escolas de artes nas principais cidades dos domínios espanhóis na América. Nesse museu podemos ver obras da Escuela Limeña (de Lima), da Escuela Cusqueña (de Cusco), da Escuela Quiteña (de Quito) e também peças trazidas da Espanha. Vale a pena visitar.

Saindo da Catedral demos de frente com a Plaza Mayor. Esse lugar é tão bonito e bem cuidado que nós não cansamos de fotografar.

Plaza Mayor

Plaza Mayor

Plaza Mayor

Plaza Mayor

Já era quase duas horas da tarde quando resolvemos ir almoçar. Escolhemos ir à algum restaurante nas redondezas. Na Pasaje de los Escribanos, uma pequena rua de pedestres entre os edifícios da Plaza Mayor, há algumas opções boas. Escolhemos o Los Escribanos, um restaurante arrumadinho, com bons preços e variado menu de peixes, mariscos, massas e carnes.

Pasaje de los Escribanos

Pasaje de los Escribanos

De entrada eu e a Dani pedimos ceviche de lenguado. O ceviche peruano é sem igual. Adoramos desde a primeira vez que provamos, em 2009, e nunca encontramos igual ao que comemos no Peru.

Almoço peruano

Almoço peruano

De prato principal eu e a Dani pedimos ají de gallina (comida típica um pouco picante com frango imerso em creme de pimentas amarelas), a dona Dóia pediu tacu-tacu con pescado acebollado (prato à base de arroz, feijões e lentilhas, acompanhado de peixe acebolado e legumes salteados), o seu Chico, mais conservador na hora de comer, pediu um peixe na chapa com legumes no vapor e a minha mãe, ainda traumatizada com a fatia de rocoto que ela comeu na véspera, pediu filé de frango na chapa com legumes no vapor. Pedimos também Inca Kola, o refrigerante mais tradicional do Peru (que eu adoro), água e a dona Dóia resolveu experimentar a chicha morada, o suco feito do milho roxo, que nesse caso não era fermentado e, portanto, não era alcoólico. De sobremesa tomamos sorvetes de lúcuma (fruta andina) e de baunilha.

Almoço perfeito

Almoço perfeito

Comemos muito bem e tudo saiu por 171,60 Nuevos Soles (R$ 116,73). Saímos do restaurante e continuamos passeando pelas ruas do centro histórico.

Ruas do centro histórico de Lima

Ruas do centro histórico de Lima

Alguns edifícios antigos tiveram seus usos readaptados à área da cultura, ajudando na revalorização do centro histórico. É o caso do antigo edifício dos correios que agora sedia a Casa de la Gastronomía Peruana e também da estação de trens Desamparados que agora é a sede da Casa de la Literatura Peruana.

Antiga sede dos correios e atual Casa de la Gastronomía Peruana (em cima). Antiga estação de trens Desamparados e atual Casa de la Literatura Peruana (embaixo)

Antiga sede dos correios e atual Casa de la Gastronomía Peruana (em cima). Antiga estação de trens Desamparados e atual Casa de la Literatura Peruana (embaixo)

O centro histórico de Lima é cheio de igrejas e conventos. Em um só dia podemos visitar vários deles pois a maioria fica a apenas alguns quarteirões da Plaza Mayor. Um dos mais antigos, bonitos e interessantes é o Convento de San Francisco.

Esse é um dos lugares mais interessantes da cidade. E não é a toa.

Convento de San Francisco

Convento de San Francisco

O atual Convento e a Iglesia de San Francisco começaram a ser construídos pela Ordem dos Franciscanos em 1657. Antes, os Franciscanos, presentes em Lima desde a fundação da cidade, só haviam construído uma pequena igreja que ficou famosa pelas obras de arte e decorações, mas que veio inteiramente abaixo com o terremoto de 1656, que destruiu grande parte de Lima.

Infelizmente fotos no interior, mesmo sem flash, são proibidas. Na visita conhecemos um pouco da história da Ordem Franciscana em Lima e de como o prédio, que é bem grande, foi construído.

Algumas partes merecem destaque, como a cúpula talhada em madeira, em estilo mudéjar, que fica sobre a escadaria principal. O claustro azulejado e rodeado por pinturas que contam a vida de São Francisco de Assis também é muito bonito. Outros lugares muito bonitos são a biblioteca e, claro, o interior da igreja.

Mas o que realmente rouba a cena é deixado para o fim da visita: as catacumbas. Estima-se que no subterrâneo da igreja de San Francisco foram sepultados cerca de 25 mil limeños!

Passamos por corredores com o teto baixo e cheios de ossos em covas lado a lado. Há uma espécie de poço com uns 3 metros de diâmetro onde olhamos para baixo e vemos milhares de fêmures e crânios (os ossos que geralmente demoram mais a se decompor) organizados simetricamente. É impressionante.

As catacumbas de San Francisco foram usadas como local de sepultamento por mais de 200 anos, quando Lima ainda não possuía cemitérios. Somente no séc. XIX é que foi proibido que mais pessoas fossem sepultadas lá. Há três andares subterrâneos cheios de ossos, mas apenas o primeiro foi escavado e está aberto a visitas pois há risco para a estrutura da igreja se as escavações avançarem.

Artesanato peruano

Artesanato peruano

Na saída, ainda passamos por um jardim onde alguns artesãos vendiam seus trabalhos. Nós até compramos algumas peças de uma simpática senhora pois os preços estavam bons e a qualidade também. O artesanato peruano é um dos mais bonitos, criativos e baratos que eu já vi.

As visitas são guiadas e saem de meia em meia hora (há grupos em espanhol e em inglês). O ingresso custa 7 Nuevos Soles (R$ 4,76). Há algumas fotos do interior (que não traduzem o que realmente vemos) e todas as informações úteis para o vistante no site oficial do Convento e Iglesia de San Francisco. É simplesmente imperdível!

Convento de San Francisco

Convento de San Francisco

Do Convento de San Francisco seguimos para a última parada do nosso passeio pelo centro de Lima, a Plaza Bolívar, onde está o Congreso de la República e o Museo del Congreso y de la Inquisición.

Em frente ao prédio do Congreso está uma estátua equestre de Simón Bolívar, herói da independência peruana.

Congreso de la República

Congreso de la República

Na lateral da praça, que também já foi conhecida como Plaza de la Inquisición, está o Museo del Congreso y de la Inquisición. Neste imóvel foi instalado, em 1570, o Tribunal do Santo Ofício, que só encerrou seus trabalhos em 1820.

Museo del Congreso y de la Inquisición

Museo del Congreso y de la Inquisición

Com a proclamação da República, o prédio serviu de sede para o primeiro congresso nacional e depois ficou sendo usado como sede do senado peruano. A partir de 1968, virou museu. A entrada é gratuita.

A Inquisição chegou ao Peru em 1570 e majoritariamente se destinou ao controle do comportamento moral e religioso da população branca, além de servir de instrumento de perseguição política contra estrangeiros em território colonial espanhol. Os indígenas, por expressa ordem da coroa, não podiam ser alvos dos trabalhos do Tribunal da Inquisição.

O Tribunal do Santo Ofício atuou de forma mais rígida logo nos primeiros anos depois de sua instalação, quando foram realizados vários Autos de Fé pelas ruas de Lima. Nos 250 anos em que funcionou, o Tribunal da Inquisição de Lima processou 1.474 pessoas.

Boneco vestindo um sanbenito e gravuras de Autos de Fé nas ruas de Lima

Boneco vestindo um sanbenito e gravuras de Autos de Fé nas ruas de Lima

Do total, a maioria foi condenada a pagar multa, ser açoitado, fazer orações, passar vergonha usando uma roupa chamada sanbenito durante os Autos de Fé… ‘apenas’ 32 acusados foram condenados à morte, a metade na fogueira e a outra metade enforcados (15 portugueses, 9 espanhóis, 3 ingleses, 2 flamencos, 2 locais e 1 francês).

A maior parte dos investigados era acusada de professar o judaísmo e o protestantismo. Alguns foram processados por bigamia, blasfêmia, práticas supersticiosas…

Representações de métodos de tortura empregados pelo Tribunal da Inquisição de Lima

Representações de métodos de tortura empregados pelo Tribunal da Inquisição de Lima

O mais interessante desse museu são sem dúvida os aparatos de tortura que eram usados nos interrogatórios.

Celas do Tribunal da Inquisição de Lima

Celas do Tribunal da Inquisição de Lima

Escavações foram feitas e revelaram parte do piso original e algumas celas minúsculas onde os acusados eram presos.

Em uma das salas ainda podemos ver a mesa do Inquisidor-Mor. Nesta sala também estão as mesas dos senadores utilizadas quando o prédio era sede do senado. O teto é todo de madeira entalhada e em sua construção não foi utilizado nenhum prego na estrutura, tudo é apenas encaixado.

Sala do Tribunal da Inquisição que também foi utilizada pelo senado peruano

Sala do Tribunal da Inquisição que também foi utilizada pelo senado peruano

Depois do museu, voltamos para a Plaza Mayor para a última vista da praça nesse fim de tarde.

Plaza Mayor no fim da tarde

Plaza Mayor no fim da tarde

Plaza Mayor no fim da tarde

Plaza Mayor no fim da tarde

De lá, caminhamos para pegar o Metropolitano na estação Jirón de la Unión e, depois de uns 20 minutos, chegamos na estação 28 de Julio, bem em frente ao nosso apartamento (1,50 Nuevos Soles/R$ 1,02 cada passagem). O Metropolitano de Lima, ainda que esteja sempre cheio, não está superlotado e funciona bem.

Quando chegamos já estava escurecendo. Mais tarde nós só fizemos um lanche com o que compramos no supermercado na véspera e fomos dormir pois o dia tinha sido longo.

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¡Hola Lima!

Primeiro dia. Quarta-feira, 28 de março de 2012.

Desde que fizemos um mochilão de 22 dias pela Bolívia e pelo Peru, em 2009, eu e a Dani sabíamos que voltaríamos. Esses dois países, com seu povo humilde, sua história, sua cultura rica e suas paisagens inesquecíveis, nos conquistaram.

Com o plano de pôr todo mundo para viajar, dessa vez eu levei a minha mãe, Conceição, e a Dani levou os pais dela, seu Chico e dona Doia. Praticamente uma excursão! Aproveitando a semana santa, conseguimos 12 dias, o suficiente para Lima, Cusco e Machu Picchu, o roteiro peruano essencial.

Uma semana antes, os pais da Dani correram para deixar tudo organizado na empresa e a minha mãe, que não fazia uma viagem internacional há muito tempo, era só ansiedade. Eu e a Dani estávamos tranquilos. A grande vantagem de voltar a um lugar que já visitamos é se sentir um pouco em casa. O planejamento fica muito mais fácil pois já sabemos o que nos espera, onde é bom ficar, as distâncias…

Emiti a minha passagem e a da minha mãe com pontos do meu TAM Fidelidade. Gastei 60 mil pontos no total, 15 mil para cada trecho para cada um (ida: Belém-São Paulo-Lima / volta: Lima-São Paulo-Belém). Pagamos só as taxas, no total de R$ 388,82, para os dois. A Dani usou pontos dela (30 mil ida e volta), pagando taxas de R$ 194,41. Os pais dela conseguiram uma promoção São Paulo-Lima-São Paulo por 38 mil pontos para os dois, pagando R$ 306,18 de taxas.

Eu, minha mãe e a Dani pegamos o voo de 01:50h da madrugada de Belém para São Paulo. Apesar de durar “só” 3 horas e 20 minutos, esse trecho é bastante cansativo pois os aviões dessa rota são os mais apertados da TAM e ainda por cima perdemos uma noite inteira de sono.

Na espera pelo voo para Lima no aeroporto de Guarulhos

Na espera pelo voo para Lima no aeroporto de Guarulhos

Encontramos com os pais da Dani, que moram em São Paulo, já no aeroporto. Foi só o tempo de sermos praticamente assaltados pelas caríssimas lanchonetes do aeroporto de Guarulhos, conversar um pouco sobre a viagem e logo embarcamos para Lima, no voo das 08:25 da manhã.

As 5 horas e 15 minutos de voo entre São Paulo e Lima foram tranquilas. Uma coisa é certa: já não podemos esperar muito do serviço de bordo da TAM, nem dos voos internacionais. Devido à diferença de fusos, que é de 2 horas, chegamos à Lima às 11:40h da manhã.

Aeroporto de Lima

Aeroporto de Lima

O aeroporto de Lima é muito bom, é grande, todo novo e moderno, melhor que qualquer aeroporto brasileiro. Não esperamos muito tempo na fila do controle de imigração, que foi bem simples. Entregamos os formulários que nos forneceram no avião e as únicas perguntas que o oficial da imigração nos fez foi quanto tempo passaríamos no Peru e o motivo da viagem. Respondemos que estávamos de férias e ficaríamos 12 dias, ele carimbou nossos passaportes e pronto, estávamos livres para pegar a bagagem.

Quando chegamos ao saguão do aeroporto muitos taxistas nos ofereceram seus serviços. Mas, antes de aceitar, fui trocar um pouco de Dólares por Nuevos Soles, a moeda peruana. O câmbio no aeroporto nunca é dos melhores mas precisávamos de algum dinheiro para o taxi  e também porque sabia que a hospedagem deveria ser paga integralmente na hora do check-in. A taxa de cambio no aeroporto estava de 1 Dólar para 2,55 Nuevos Soles. Peguei um pouco de dinheiro de cada um e troquei 500 Dólares por 1.275 Nuevos Soles.

O guia da Lonely Planet que eu levei nesta viagem de 2011 foi o mesmo que eu usei em 2009 (edição de 2007), portanto, totalmente desatualizado em relação aos preços, inclusive o do taxi para sair do aeroporto.

No Peru não há taxímetro e todas as corridas devem ser negociadas antes de entrarmos no taxi. Aproveitei para perguntar para a moça da casa de câmbio quanto sairia, em média, uma corrida do aeroporto até Miraflores, região onde ficaríamos hospedados. Ela me disse que custaria no máximo 100 Nuevos Soles (R$ 68). O preço da corrida a partir do aeroporto varia de acordo com a região de destino na cidade.

Com o dinheiro trocado, voltei para conversar com o primeiro taxista que nos ofereceu seus serviços. Depois de dizer o endereço e ele me confirmar que tinha uma van onde caberíamos nós 5 e mais as bagagens, chegamos a um valor razoável: 80 Nuevos Soles (R$ 54,40), o que correspondia a apenas 10,88 Nuevos Soles (R$ 7,39) para cada um de nós. Nada mau para os cerca de 20 km entre o aeroporto e Miraflores.

A van, do tipo Besta, não era zero Km mas até que estava bem conservada. Nos acomodamos todos confortavelmente. Marco, o motorista, foi prestativo com as bagagens e dirigiu com cuidado. Logo percebemos que o trânsito em Lima continuava bastante pesado e a buzina ainda era muito querida!

Depois de passar por Callao (onde fica o aeroporto), San Miguel e Pueblo Libre, cidades do entorno de Lima, chegamos ao Circuito de las Playas de la Costa Verde. Essa é uma via expressa por onde os carros correm muito e que tem de um lado as falésias que caracterizam a região costeira de Lima e do outro as praias do oceano Pacífico.

O clima em Lima estava quente, quase 30º C, bem diferente de 2009, quando fomos em junho e as temperaturas estavam um pouco abaixo de 20º C. Como sempre, o céu estava nublado. Lima fica quase o ano todo com céu nublado mas, como disse o Marco, nosso motorista, em Lima não chove, só garoa. 

Em cerca de 40 minutos chegamos ao nosso prédio. Pagamos a corrida e eu aproveitei para pegar o cartão do Marco e combinar o mesmo preço (80 Nuevos Soles / R$ 54,40) para a volta ao aeroporto para a viagem até Cusco daí a três dias. Ele aceitou prontamente e disse que era só ligar avisando o horário em que ele deveria vir nos buscar.

A primeira impressão que tivemos do prédio foi muito boa. O edifício de 16 andares (com dois elevadores) era novinho e o porteiro ajudou com a bagagem. Trata-se, na verdade de um edifício residencial e não de um hotel. Há muitas opções de hospedagem como esta em Lima. O setor imobiliário da cidade está a mil, fruto do grande aquecimento da economia peruana que há anos está crescendo a altas taxas. De 2009 para 2012 surgiram muitos prédios em Miraflores. Nas janelas dos apartamentos víamos muitas placas de ‘aluga-se’.

Da primeira vez que fomos à Lima, eu e a Dani ficamos em um hostel também em Miraflores, o Che Lagarto, que achamos muito bom. Dessa vez procuramos por um apartamento para que ficássemos todos juntos. Reservamos o Rentals In Miraflores Apartments no site do Booking.com. Por essas três primeiras noites pagamos 950 Nuevos Soles (R$ 646), o que corresponde a R$ 43 por dia para cada um. Vale a pena.

Apartamento em Lima

Apartamento em Lima

Depois de esperar uns 15 minutos, a dona do apartamento chegou e então subimos. O apartamento fica no segundo andar e é ótimo. São três quartos, um de casal, um de solteiro e outro com uma bicama. Há dois banheiros e uma ampla sala com sofás e mesa de jantar. A cozinha é toda equipada com geladeira, fogão, microondas, talheres, pratos e copos. Tudo novo e bonito. Há duas TVs de LCD nos quartos de casal e de solteiro. O wi-fi também é liberado e funciona bem (o que para a gente é essencial).

A localização desse apartamento também é perfeita, na esquina do Paseo de la República com a Av. 28 de Julio. Miraflores é uma das regiões mais valorizadas de Lima. Praticamente em frente ao prédio está a estação 28 de Julio do Metropolitano, o BRT de Lima. Bem perto também temos supermercados, shopping center, farmácias, lojas de conveniência, praças, a orla, muitos restaurantes… Miraflores é uma região muito segura, limpa e arborizada. É sem dúvida a melhor localização de Lima, tanto que os melhores hotéis e cassinos ficam lá.

Depois que a dona do apartamento nos mostrou tudo, nós pagamos e ficou combinado que no dia do check-out era só deixar as chaves com o porteiro. Assim que ela foi embora nós dividimos os quartos, guardamos as malas e mochilas e saímos logo em seguida para almoçar. Já era pouco mais de 2 horas da tarde e estávamos morrendo de fome.

Larcomar

Larcomar

Escolhemos ir ao Larcomar, um shopping center a céu aberto muito bonito que fica nas falésias, de frente para o mar. Do nosso prédio até lá eram cerca de 10 quarteirões. Peguei o guia para ver o mapa e nos localizar e fomos caminhando.

Vista do litoral de Miraflores com o Pacífico e as falésias

Vista do litoral de Miraflores com o Pacífico e as falésias

Vista do Larcomar

Vista do Larcomar

Chegando lá temos uma bela vista do litoral limeño. A área onde fica o Larcomar é um lugar muito bonito. Este é um shopping center de classes média e alta e tem de tudo: cinemas, teatro, boliche, muitos restaurantes (inclusive de comida peruana), bares, boates, todas as grandes redes de fast food internacionais e lojas de todo tipo. Claro que os preços aqui são um pouco acima da média, mas só a vista que temos de lá já vale a pena.

Parapente no Larcomar e a costa de Miraflores

Parapente no Larcomar e a costa de Miraflores

Muita gente aproveita os ventos e as falésias para pular de parapente (paragliding). Há agências de esportes radicais em Lima que arranjam tudo para quem quiser se aventurar. Não é muito a minha praia, então obviamente nunca passou pela minha cabeça ir.

Escolhemos um dos vários restaurantes que têm vista para o mar e nos sentamos para almoçar. No cardápio havia muitas opções de comida peruana (aliás, a comida peruana é bastante variada e dificilmente alguém, mesmo os mais restritos, vai ficar com fome) e também de pratos internacionais mais comuns.

Pedimos vários pratos. O seu Chico ficou com um mais tradicional, lenguado a la plancha (linguado na chapa). Eu, a Dani e as nossas mães pedimos variados pratos de mariscos para dividir. São poucos os lugares onde podemos comer mariscos tão bons quanto os do Peru.

Almoço no Larcomar

Almoço no Larcomar

Uma das travessas veio cheia de lagostins, polvo, lula e mexilhões com molhos tártaro, honey mustard e de tomates, tudo gratinado com parmesão. Outro prato que eu pedi foi um tacu tacu, que é uma comida típica da cozinha criolla peruana feito a base de arroz, feijões e lentilhas, coberto com molho de mariscos. Muito bom!

Mas, apesar de tantas coisas boas para provar, ainda acho que a estrela da cozinha peruana é o ceviche, uma paixão que eu e a Dani temos desde que provamos pela primeira vez esse prato tipicamente limeño. É claro que pedimos um também. Trata-se de cubinhos de peixe cru temperados e marinados no limão, acompanhados de cebola roxa fatiada e outros ingredientes típicos peruanos como um pedaço de espiga de choclo cozido (o enorme milho andino) e um pedaço de camote cozido, uma batata alaranjada e bastante doce que serve para cortar o ardor da pimenta que vem misturada. O segredo, como não poderia deixar de ser, é o peixe ser fresco. Outras variações existem (como o ceviche de camarão, de lula…), mas a mais tradicional é essa.

Para beber eu e o seu Chico pedimos duas garrafas de Cusqueña, a cerveja de Cusco. A Dani e as mães pediram sucos variados. O Peru é um país de muitas frutas típicas. Entre os sucos que elas pediram estavam o de lúcuma e o de chirimoya, todos dois muito bons.

O prêmio “acontecimento do almoço”, entretanto, ficou com a minha mãe. Ela já vinha reclamando desde o Brasil de uma certa indisposição no estômago e por descuido e muito azar acabou mastigando uma rodela enorme de rocoto, a pimenta mais tradicional da cozinha peruana, que estava enfeitando o ceviche. A pobre cuspiu fogo! Quem conhece sabe do que eu estou falando. Essa pimenta é absurdamente ardida! Geralmente pedaços grandes são colocados só para decorar e apenas pedacinhos bem pequenos são misturados à comida. Ficou traumatizada. Até a garçonete ficou com pena quando soube.

O pior é que eu já tinha avisado para ter cuidado com tudo o que fosse vermelho, que era pimenta e ardia muito. Isso porque em 2009, em Cusco, pensando ser uma rodela de pimentão, eu também me tornei uma vítima desavisada do rocoto e desde lá eu passei a ter o maior cuidado com ele.

No fim, todo o almoço saiu por 225,50 Nuevos Soles (R$ 153,34). Já com a gorjeta que, como no Brasil, é de 10% e também não é obrigatória.

Seu Francisco, dona Doia e as praias de Miraflores

Seu Francisco, dona Doia e as praias de Miraflores

Depois do almoço fomos trocar mais um pouco de dinheiro pois o que trocamos no aeroporto já estava no fim. Há uma casa de câmbio no Larcomar e a cotação estava bem melhor, de 1 Dólar para 2,64 Nuevos Soles. O Larcomar, além de ser muito agradável, tem tudo o que podemos precisar na nossa estadia em Lima. É muito prático ficar perto dele.

Larcomar

Larcomar

Fomos então comer a sobremesa no Café Havanna, a chocolateria argentina famosa pelos alfajores. Tomamos cafés e sorvete e ainda comemos uns biscoitos cobertos de chocolate (gemelitas). A conta saiu por 37 Nuevos Soles (R$ 25,16).

Sorvete Havanna

Sorvete Havanna

Depois de tirar a barriga da miséria e passear pelo Larcomar e pela orla ali por perto, resolvemos voltar ao apartamento.

Miraflores

Miraflores

Dani e os pais dela em Miraflores

Dani e os pais dela em Miraflores

Foi só o tempo de subir, tomar uma água e sair de novo rumo ao Parque de la Reserva. Essa foi a nossa primeira vez no Metropolitano de Lima, o novíssimo sistema de BRT da cidade.

Ainda no Brasil eu pesquisei tudo sobre ele e imprimi o mapa do eixo troncal. Depois eu procurei no Google Maps quais estações nós íamos precisar usar para visitar os lugares que queríamos. O sistema, inaugurado parcialmente em julho de 2010, ainda nem existia quando estivemos em Lima pela primeira vez. O transporte coletivo era feito só por ônibus pequenos, praticamente vans, os chamados bus chicos. Esses ônibus coloridos e com o cobrador gritando os destinos na janela ainda existem, apesar de não passarem mais no eixo por onde passa o Metropolitano. Sem dúvida a construção do BRT foi um grande avanço para Lima. Esse primeiro eixo conecta a região metropolitana de norte a sul. Além de projetos de extensão do sistema de BRT, está também em construção a ampliação do Metro de Lima que já circula em uma pequena linha no norte da cidade.

Tarjeta do Metropolitano de Lima

Tarjeta do Metropolitano de Lima

Na estação 28 de Julio, que fica no Paseo de la República, em frente ao nosso prédio, compramos dois cartões do Metropolitano. A compra é feita em máquinas. Cada cartão, tarjeta tarifa general, custou 3 Nuevos Soles (R$ 2,04). Depois é só colocar créditos para as passagens, também nas máquinas. Cada passagem custava 1,50 Nuevos Soles (R$ 1,02 cada). A máquina não dá troco. Não é necessário comprar um cartão para cada pessoa. Como o sistema desconta créditos na entrada, o mesmo cartão pode ser usado por várias pessoas. Eu e a Dani compramos dois cartões para cada um ficar com um.

O sistema parece funcionar muito bem. Esperamos menos de 5 minutos pelo ônibus. Depois de dez estações e cerca de 15 minutos, descemos na estação Estadio Nacional, que fica ao lado do Parque de la Reserva.

Estação Estadio Nacional

Estação Estadio Nacional

Descendo do ônibus vimos que o Estadio Nacional foi completamente reformado e estava muito diferente do estádio antigo que vimos em 2009, que tinha uma estrutura bem decadente.

O Parque de la Reserva fica entre o Paseo de la República e a Av. Arequipa. Este parque público foi inaugurado em 1929 e batizado com este nome em homenagem aos reservistas que durante a Guerra do Pacífico (1879-1883) lutaram para defender Lima da invasão do exército chileno.

Minha mãe, Dani e dona Doia no Parque de la Reserva

Minha mãe, Dani e dona Doia no Parque de la Reserva

Neste terreno o exército peruano formado por reservistas civis se concentrou e se preparou antes de ser enviado para lutar nas batalhas de San Juan e de Miraflores.

Parque de la Reserva

Parque de la Reserva

Essa guerra marcou profundamente o sentimento nacional. O Peru perdeu a guerra, perdeu parte do seu território e ainda passou pela humilhação de ter sua capital ocupada pelo exército chileno. Felizmente a questão foi melhor resolvida pelos peruanos que pelos seus aliados bolivianos que perderam seu litoral para o Chile e ainda se ressentem muitíssimo disso.

Parque de la Reserva

Parque de la Reserva

O parque ficou abandonado por muito tempo e só foi restaurado em 2007. Atualmente o parque histórico é mais famoso pelo seu Circuito Mágico del Agua, o maior conjunto de fontes em um parque público do mundo, segundo o Guiness.

Parque de la Reserva

Parque de la Reserva

Dona Doia no Parque de la Reserva

Dona Doia no Parque de la Reserva

Os 4 Nuevos Soles (R$ 2,72) do ingresso valem muito a pena. O parque é muito bem cuidado. Há canteiros de flores por toda parte. É um lugar muito agradável e muito bonito.

Parque de la Reserva

Parque de la Reserva

Chegamos ainda claro e fomos vendo a noite cair.

Fuente Laberinto del Ensueño

Fuente Laberinto del Ensueño

Uma das fontes mais legais é a interativa Fuente Laberinto del Ensueño. O Objetivo é chegar ao centro e voltar sem se molhar. O problema é que são diferentes jatos de água acionados aleatoriamente.

Fuente Laberinto del Ensueño

Fuente Laberinto del Ensueño

Muita gente toma banho e as crianças adoram. Quem quiser tentar é bom levar roupa extra. Há vestiários no parque.

Túnel de las Sorpresas

Túnel de las Sorpresas

Túnel de las Sorpresas

Túnel de las Sorpresas

Outra fonte legal é a Fuente Túnel de las Sorpresas. Nela passamos embaixo dos jatos sem nos molhar. Muito legal.

Túnel de las Sorpresas

Túnel de las Sorpresas

Conforme a noite vai caindo e as luzes das fontes são acesas, o parque fica ainda mais bonito.

As luzes do Parque de la Reserva

As luzes do Parque de la Reserva

Eu e minha mãe no Parque de la Reserva

Eu e minha mãe no Parque de la Reserva

O Parque de la Reserva é cercado e tem guardas por toda parte. Segurança não é um grande problema em Lima e esse parque é mais seguro ainda.

Dani e a Fuente de la Fantasía

Dani e a Fuente de la Fantasía

Na maior fonte de todas, a Fuente de la Fantasía, há um espetáculo de águas dançantes em que as luzes e os jatos de água são acionados no ritmo de música clássica. Em 2009 nós vimos, mas agora em 2012 fomos embora antes de começar. Há três apresentações: 19:15h, 20:15h e 21:30h.

Fuente de la Fantasía

Fuente de la Fantasía

Tivemos que ir embora pois realmente estávamos muito cansados. Eu, a Dani e a minha mãe tínhamos passado a noite viajando. E ainda tínhamos que ir ao supermercado comprar algumas coisas para a nossa estadia.

Parque de la Reserva com o Estadio Nacional ao fundo

Parque de la Reserva com o Estadio Nacional ao fundo

Antes de ir embora eu e a Dani ainda passamos outra vez no túnel, que agora estava vermelho com as luzes acesas.

Eu e Dani no Túnel de las Sorpresas

Eu e Dani no Túnel de las Sorpresas

Parque de la Reserva com o Estadio Nacional ao fundo

Parque de la Reserva com o Estadio Nacional ao fundo

Parque de la Reserva

Parque de la Reserva

O horário de abertura do parque é de 6:00h às 13:00h e de 15:00h às 23:00h. Mas as fontes só funcionam na parte da tarde pois na parte da manhã elas estão em manutenção. Para ter certeza dos horários e tarifas, antes de ir é bom visitar o site oficial do Parque de la Reserva.

Estadio Nacional e a estação do Metropolitano

Estadio Nacional e a estação do Metropolitano

Pegamos o Metropolitano na mesma estação Estadio Nacional, no Paseo de la República e descemos uma estação antes da que fica em frente ao nosso prédio, na estação Benavides, pois essa fica mais perto do supermercado.

Antes de chegar em Lima eu pesquisei por supermercados na área de Miraflores e encontrei um supermercado da rede peruana Vivanda. Essa loja fica na esquina da Av. Benavides com a Calle Alcanfores, a sete quarteirões do nosso prédio.

Vivanda

Vivanda

Como era época de páscoa, havia alguns ovos à venda. Engraçado é que nunca vi tanta variedade de ovos de páscoa de chocolate quanto no Brasil. Pelo menos no Chile e aqui no Peru, países onde estive na época da páscoa, essa não é uma tradição muito forte.

Vivanda

Vivanda

Uma das melhores seções do supermercado é a de hortifruti. A variedade de produtos é enorme. Destaque para o rocoto (pimenta essencial da cozinha peruana), o maíz morado (milho escuro que serve para fazer a chicha morada, uma bebida típica peruana que pode ser alcoólica ou não) e a variedade de diferentes papas (batatas), ingredientes que só encontramos aqui.

Vivanda. Rocoto (na minha mão) e o maíz morado

Vivanda. Rocoto (na minha mão) e o maíz morado

Além de todas as frutas mais comuns, que conhecemos no Brasil, há também muitas frutas diferentes, típicas da região.

Frutas no Vivanda

Frutas no Vivanda

Compramos muita coisa para esses primeiros dias em Lima. Desde sabão para a louça até tudo para o café da manhã, lanche da noite, refrigerantes e água mineral. Quase enchemos um carrinho por 84,49 Nuevos Soles (R$ 57,45).

Os supermercados Vivanda estão presentes nos melhores bairros de Lima. A variedade de produtos é boa e a loja é muito bonita. Os preços não são os melhores para os padrões peruanos, mas nada exagerado. Há outras opções em Miraflores como os supermercados da rede Metro. Há muitas lojas de conveniência (geralmente nos grifos, como os peruanos chamam os postos de gasolina) e outros mercadinhos menores também.

Nosso prédio

Nosso prédio

Voltamos caminhando. Chegamos em casa por volta das 8 e meia da noite, muito cansados. Nosso primeiro dia tinha sido intenso. Aí foi só tomar banho, comer um pouquinho e ir dormir. No dia seguinte os planos eram conhecer o centro histórico.

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Roteiro da viagem Peru 2012

Depois de mais de um ano de atraso finalmente acabei de escrever o relato da viagem para o Reino Unido e a França que fizemos em 2011. Mas ainda há muito a contar.

Com este post eu começo a relatar a viagem para o Peru que fizemos na semana santa de 2012, de 28 de março a 08 de abril.

Em 2009, eu e a Dani fizemos um mochilão de 22 dias começando na Bolívia e terminando no Peru. Essa sem dúvida foi uma viagem que nos marcou pois envolvia muitas novidades.

Ali experimentamos extremos de temperatura (-20º C), extremos de altitude (quase 5.000 metros acima do nível do mar), extremos de aridez, extremos de isolamento… Vimos um céu muito azul, montanhas muito altas, conhecemos cidades históricas, sítios arqueológicos, provamos comidas diferentes, encaramos protestos nas estradas e fizemos tudo isso da melhor forma: com uma mochila nas costas, independentes.

Como não poderia deixar de ser, foi também nessa viagem que tivemos pela primeira vez um contato mais próximo com a cultura das civilizações do altiplano andino da qual Peru e Bolívia são os dois maiores herdeiros. Foi amor a primeira vista! Tanto é que, menos de 3 anos depois, resolvemos voltar.

Essa viagem de 2012 também foi especial pois, diferentemente da primeira vez, em 2009, eu e a Dani não fomos sozinhos. Eu levei a minha mãe, Conceição, que há muito tempo não fazia uma viagem internacional, e a Dani levou os pais dela, seu Chico e dona Dóia.

Como já contei por aqui, eu e a Dani sempre preferimos viajar para lugares frios. Na primeira vez que estivemos no Peru era mês de junho e as temperaturas estavam bem agradáveis na capital peruana, chegando a fazer muito frio em várias das outras 9 cidades por onde passamos nos dois países. A época em que fomos agora em 2012 não foi a melhor de todas pois chegamos a pegar alguns dias de calor (principalmente em Lima, que não se beneficia do frio de altitude dos Andes pois está à beira do Pacífico). Nada que atrapalhasse muito e até tivemos bonitos dias de céu aberto que nos deram bonitas fotos. Enfim, foi a época possível pois precisávamos dos feriados da semana santa para poder juntar com algumas folgas que tínhamos por trabalho extra e chegar aos 12 dias que queríamos.

Dessa vez não poderíamos ser muito “radicais”. Não tínhamos tempo para um mochilão daqueles que vamos de cidade em cidade e nem poderíamos levar nossos pais à lugares sem muita estrutura para recebê-los.

Agora em 2012 passamos por Lima, Cusco, Aguas Calientes e, claro, Machu Picchu. O mapa da viagem com os lugares que visitamos no Peru é o seguinte:

Clique no mapa para aproximar ou distanciar.

O nosso roteiro final ficou assim:

Peru (12 dias)

Dias 28, 29 e 30/03 – Lima.

Dias 31/03 e 01/04 – Cusco.

Dia 02/04 – Machu Picchu, dormindo em Aguas Calientes.

Dias 03 e 04/04 – Cusco.

Dias 05, 06 e 07/04 – Lima.

Dia 08/04 – Volta para o Brasil.

Repetimos praticamente o mesmo roteiro que fizemos no Peru em 2009, com exceção de Puno, cidade peruana que fica um pouco mais inacessível, quase na fronteira com a Bolívia. Para que não seja o único lugar do Peru que eu visitei e que não está no blog, prometo que no fim do relato desta viagem, faço um post a mais para falar de só de Puno!

Essa viagem foi também a de estreia da minha máquina fotográfica nova que eu ganhei de presente de aniversário antecipado da Dani. O modelo é SONY Alfa NEX-C3K. Ainda que quase sempre as fotos não consigam reproduzir tudo o que vemos ao vivo, sem dúvida com essa máquina as fotos ficaram muito melhores.

Nas vésperas do embarque estávamos bastante empolgados com os 12 dias seguintes. Começarei a relatar tudo, dia a dia, no próximo post!

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