Os Banhos Romanos e a Abadia de Bath

Décimo primeiro dia. Quarta-feira, 12 de outubro de 2011.

Segundo o guia da Lonely Planet, se existe uma cidade no interior da Inglaterra que merece uma visita bate e volta, essa cidade é Bath. Obviamente, a maioria das pessoas que vai à Bath em uma viagem à Grã-Bretanha, vai a partir de Londres. Eu e a Dani, entretanto, preferimos ir a partir de Cardiff. A justificativa é óbvia: de Londres à Bath são 193 km de distância. De Cardiff à Bath, apenas 90 km!

Acordamos não tão cedo. O cansaço acumulado da viagem começou a bater e saber que não temos hora marcada na estação para pegar o trem fez com que ficássemos ainda mais preguiçosos. Ficamos enrolando e quando vimos já era 9 da manhã.

Levantamos, nos arrumamos e descemos para tomar outra vez aquele café da manhã inglês reforçado (6 Libras / R$ 18 cada). Saímos e vimos que o tempo ainda era aquele nublado de sempre.

A estação de trem era perto do nosso hotel, apenas cinco quadras. Chegando lá, pegamos o trem das 10:30 horas. Vale a pena escolher horários livres, assim, não tem correria e podemos fazer tudo com calma.

Estação de trens de Cardiff

Pagamos 19,50 Libras (R$ 58,50) ida e volta para cada um. Compramos no guichê da estação de Cardiff mesmo, dois dias antes. Comprar passagens de trem na Inglaterra pela internet é meio complicado pois eles pedem um cartão de crédito britânico que, obviamente, eu não tenho. As passagens de ônibus geralmente são mais baratas (às vezes muito mais baratas) que as de trem e os sites das empresas de ônibus aceitam cartões de crédito internacionais, possibilitando a compra ainda no Brasil.

Dani e eu no trem para Bath

A viagem de Cardiff até Bath dura uma hora e os trens são pontuais, muito confortáveis e limpos. O nosso trem saiu até vazio. O sistema de trens da Inglaterra funciona muito bem, a rede é grande e tem estações em quase todas as cidades, até nas menores. Viajar de trem pelo país (apesar de ser mais caro do que de ônibus) é uma experiência muito interessante, ainda mais para nós, brasileiros, acostumados a serviços públicos de péssima qualidade.

Estação de trens de Bath

Bath é uma pequena cidade histórica, com apenas 90 mil habitantes, localizada no sudoeste inglês, condado de Somerset. Fundada no ano 43 D.C., pelos romanos, Aquae Sulis foi o seu primeiro nome. Os romanos construíram na cidade um dos maiores banhos do Império, aproveitando as fontes naturais de águas quentes da região.

Com a queda do Império Romano, a cidade ficou estagnada até a chegada dos Anglo-Saxões, em 757 D.C. Foram eles que tornaram a cidade um centro comercial de lã e de peregrinação na Idade Média, tanto por causa das termas, às quais se atribuía o poder de cura de doenças como a lepra, quanto por causa da religião, com a construção da primeira Abadia de Bath.

Saindo da estação de trens, percebemos que o clima fechado de Cardiff tinha vindo com a gente. A estação é bem central e percebemos que a cidade era pequena e calma.

A arquitetura nos chamou a atenção pela sua elegância, quase tudo herança da era Georgeana, quando quatro reis George reinaram consecutivamente, de George I à George IV, de 1714 à 1830.

Caminhando, logo nos deparamos com um bonito parque, o Parade Gardens.

Parade Gardens

Esse parque fica entre o centro de Bath e o rio Avon e fica em um plano mais baixo que a cidade.

Rio Avon

De lá de baixo, podemos ver muitos dos bonitos edifícios que o cercam. Muito bem cuidado, o Parade Gardens é bastante florido.

Parade Gardens

Os canteiros do parque eram temáticos. Havia um que era um coração com a bandeira britânica no meio, feita com flores coloridas, em homenagem ao casamento real do príncipe William. Vimos também um arranjo que deve ter sido muito difícil de fazer. Eram crianças de mãos dadas em volta de uma pequena árvore com a mensagem: plant a tree for the future of the planet (plante uma árvore para o futuro do planeta).

Parade Gardens

A dois passos do Parade Gardens fica a pracinha principal de Bath, onde ficam a Abadia de Bath e os Banhos Romanos.

Abadia de Bath

Essa praça já é mais movimentada que o resto da cidade e dá para ver que o turismo de massas chegou com força à Bath. Ônibus de turismo e grupos guiados estão por todos os lados. Mas, mesmo lotado de turistas, esse centrinho da cidade ainda é muito bonito.

Praça central de Bath com a Abadia (esquerda) e os Banhos Romanos (direita)

Resolvemos, então, conhecer primeiramente a Abadia de Bath.

Abadia de Bath

Fundada por beneditinos logo da chegada dos Anglo-Saxões, a Abadia de Bath original já não existe mais. Ela ficou de pé entre 757 e 1066, quando foi destruída durante a invasão normanda. Os normandos construíram outra catedral no lugar, que ficou pronta em 1090, mas já estava em ruínas por volta do final do séc. XIV. A atual abadia é uma reconstrução em menor escada da antiga igreja anglo-saxã e sua construção foi iniciada em 1499 e terminada apenas em 1611.

O trabalho artístico da construção é muito detalhado. São coisas que já não se fazem mais. O teto em abóbada de leque e os vitrais coloridos são pontos altos (apesar de terem sido acrescidos mais recentemente, no séc. XIX). A Abadia de Bath é considerada a última das grandes igrejas medievais da Inglaterra.

Teto da nave central da Abadia de Bath, em abóbada de leque

Mais além de beleza arquitetônica, a Abadia de Bath é um lugar de muita relevância histórica para a Inglaterra. Foi exatamente naquele lugar que, no ano de 973 D.C., ainda na antiga abadia anglo-saxã, em que Edgar, o Pacificador, após submeter os reinos do norte, foi coroado o primeiro rei de toda a Inglaterra, unificando o país.

Outra coisa que chama a atenção é o fato da Abadia de Bath ser excessivamente utilizada como cemitério. Assim como na Abadia de Westminster, em Londres, há placas e esculturas por toda a parte fazendo referência a personalidades importantes religiosas e não-religiosas que estão ali sepultadas. O comando da Igreja pelo rei, fruto da Reforma Anglicana, fez com que houvesse uma grande confusão entre Estado e religião. É muito comum aqui na Grã-Bretanha vermos nas igrejas referências (bandeiras, altares, placas) às forças armadas e às guerras em que o país participou.

Parede coberta de lápides na Abadia de Bath

A entrada é gratuita e ainda há a possibilidade de subir as torres (não sei se é gratuito também). Vale a pena visitar.

Bem ao lado da Abadia de Bath fica a entrada dos Roman Baths(Banhos Romanos), o principal ponto de interesse da cidade, claro.

Banhos Romanos

Entramos em um grande salão de teto alto e cheio de turistas onde compramos os ingressos. Cada um custa 12 Libras (R$ 36). Os áudio-guias (não tem em português) estão inclusos no preço dos ingressos.

Banhos Romanos

Além dos banhos, a construção romana também abrigava um templo dedicado à deusa Sulis Minerva. Sulis era a deusa celta das nascentes e os romanos logo a identificaram com Minerva. Essa mistura religiosa é interessante por deixar evidente que os romanos não só dominaram as ilhas britânicas, mas também foram influenciados pela cultura local. Há relatos que afirmam que as termas romanas já existiam no ano de 75 D.C., mas o uso dessas fontes de água quente pelos povos celtas é bem mais antigo.

Seguimos para a área das visitações e logo temos uma bonita vista da grande piscina dos banhos.

Grande banho

Vista da Abadia de Bath de dentro dos Banhos Romanos

Grandes banhos

Grandes banhos

No andar de baixo se encontram várias salas interligadas que formavam o complexo dos banhos. Há exposições que contam detalhadamente a história do lugar.

Em uma época em que não existia água corrente nas casas, os banhos públicos eram um grande feito de saúde pública e lazer, muito apreciados pelos romanos. Nos banhos espalhados pelo Império a elite política e econômica da época se encontrava e socializava.

Nos banhos de Bath podemos ver como tudo era organizado. Havia banhos com água fria e banhos com água quente. As águas eram levadas da fonte até as piscinas por meio de uma tubulação subterrânea de chumbo (os romanos não sabiam que o chumbo era tóxico).

Fonte termal dos Banhos Romanos

Hoje, algumas piscinas estão secas, exibindo o processo de construção. Outras estão cheias e viraram fontes de desejos, com o fundo cheio de moedas. Fizemos os nossos pedidos também, claro.

Na área onde ficava o templo está em exposição uma cabeça de bronze da deusa Sulis Minerva, original da época.

Sulis Minerva

Todo o templo e também os banhos eram ricamente decorados com mosaicos e mármores. Infelizmente, quase tudo se perdeu. Ficaram apenas alguns pedaços do frontão do templo, com o famoso górgona, símbolo dos banhos, intacto ao centro.

Reconstituição do frontão do Templo de Sulis Minerva

Górgona símbolo do templo

A fonte está até hoje jorrando águas termais ricas em minerais, a uma temperatura constante de 46°C. Podemos ver até uma fumacinha saindo da água.

Banhos Romanos com a água fumaçando de quente

Sem dúvida a parte mais bonita da visita é o grande banho. Cercado por colunas e estátuas romanas, hoje ele fica a céu aberto e tem como cenário outros edifícios de Bath, inclusive a vizinha abadia, mas, na época romana, era coberto por uma abóbada de pedra em formato cilíndrico.

Grande banho

A piscina tem degraus em toda a volta que descem até o fundo plano, a 1,60 metros de profundidade, fundo este que está até hoje coberto com chumbo romano. Em volta desta grande piscina há bancos de mármore onde os banhistas podiam se sentar para conversar.

Grande banho

Depois da partida dos romanos, o templo pagão foi destruído e os banhos, abandonados, desabaram e foram soterrados e esquecidos. Muito do que vemos aqui são reconstruções das termas originais, fruto de pesquisas históricas. Só nos anos de 1880 é que a maioria do complexo foi escavada e começaram os estudos mais aprofundados do local.

Obviamente, não podemos entrar na água dos Roman Baths (e quem ia querer entrar nessa água verde?!). Para aqueles que querem experimentar banhos quentes em Bath, existe um hotel-spa que explora as águas de outra fonte termal da cidade, mas prepare o bolso pois é caríssimo. Eu e a Dani nos contentamos só de olhar e conhecer a história mesmo.

Impossível é não se impressionar com o feito dos romanos em construir uma estrutura daquelas tão longe de casa. Para quem vem à Bath, visitar as Termas Romanas é fundamental. Recomendo fortemente.

Na lojinha, comprei um imã em porcelana com as fachadas da praça, onde ficam a abadia e as termas. Em frente à loja, a Dani fez questão de deixar cair e quebrar. Mas ela se redimiu e comprou outro para mim (também… com a cara que eu fiz… hahaha).

Além da abadia, dos banhos romanos e do centrinho de Bath, com sua bonita arquitetura, mais ao norte existe dois conjuntos de casas geminadas históricas construídas em ruas curvas que são muito famosos, The Circus e The Royal Crescent. Mas nós já estávamos meio cansados e mesmo não sendo tão longe, bateu uma preguiça enorme de ir dar uma olhada. Ficou para uma próxima. Já era umas 3 horas da tarde, então fomos procurar um lugar para almoçar.

Bath

Bath

Andamos sem destino, à espera de uma boa comida. Encontramos uma ruela toda decorada com bandeirinhas que nos chamaram a atenção. Ali encontramos um restaurante despretensioso (apesar do nome francês) que servia pequenas porções. O nome era La Croissanterie.

Bath

Comemos torta de frango e quiche de legumes com refrigerantes. Na saída, apesar de satisfeitos, compramos três fatias de bolos diferentes e guardamos para comer quando desse vontade. Tudo custou 11,70 Libras (R$ 35,10).

Bem na esquina dessa rua tinha uma livraria anunciando promoções. Entramos e eu comprei um livro de história sobre as Guerra Civis Inglesas, um período muito conturbado da história deles e que acabou influenciando o mundo todo.

Depois do almoço, sabendo que as passagens de volta eram para qualquer horário, foi difícil resistir à preguiça. Era hora de ir para a estação. Pegamos o trem das 16:30 horas.

Estação de trens de Bath

Chegando em Cardiff, passamos em um supermercado da Tesco que fica bem ao lado do nosso hotel. Compramos mais uns sanduíches naturais, água e refrigerantes. Na hora de pagar, vimos um sistema interessante, o auto check-out. No caixa não tinha atendente e nós mesmos passávamos as compras no leitor, selecionávamos a forma de pagamento e pagávamos para uma máquina, sem ninguém para fiscalizar se tínhamos passado todos os produtos antes de pôr na sacola. Sei que isso é só mais uma medida para cortar custos da empresa, mas eu achei prático. Nessas horas é impossível não ter aquele pensamento: será que um dia veremos algo do tipo no Brasil?

Chegamos no hotel e fomos deitar. Acordamos só para comer e dormimos de novo. No outro dia íamos voltar para Londres e estávamos animados com isso pois ainda tinha muita coisa para fazer por lá.

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Sobre Arnóbio Neto

Sou bacharel em Direito e mestrando em Cultura, Sociedade e Economia de China e Índia. Sou funcionário público e tenho planos de conhecer o mundo.
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4 respostas para Os Banhos Romanos e a Abadia de Bath

  1. mayarend disse:

    Oi Arnóbio!
    Encontrei seu blog hoje e estou deslumbrada. Estou pensando em uma viagem de formatura, ao invés de festa, para que eu e meu namorado possamos aproveitar em algum lugar. Pensei em Londres, sou apaixonada, mas vendo os teus custos me apavorei.
    Vi uns pacotes online de passagem+hotel que está na base de R$ 2.500,00 e poxa, vale muito a pena… Aí só precisaria mais o que gastar lá… Mas parece tudo caro lá, até por causa da Libra né?
    Para alguém com um orçamento apertado que quer ficar só em Londres (seria só uns 5 dias, teria que ser só a cidade mesmo), você acha que dá pra fazer uma viagem legal? Ver os pontos turísticos, conhecer a cidade, essas coisas?

  2. Arnóbio Neto disse:

    Olha, não vou negar. Londres é cara! A Libra não ajuda. Mas se você conseguiu passagem de ida e volta mais 5 diárias por R$ 2.500,00 está valendo muito a pena!
    Hospedagem é uma das coisas que mais encarecem a cidade. Só dá uma olhada na localização do hotel e se ele é perto de alguma estação do metrô.
    Acho que 5 dias só para Londres está bom sim. Vai ter que correr para fazer tudo porque tem muito o que fazer por lá mas, pensando bem, Londres é uma cidade que sempre vai ter o que fazer, não dá para conhecer tudo de uma vez (nem que você tenha 10 ou 15 dias).
    Para conhecer os principais pontos turísticos, acho que 5 dias está bom sim. Vai em frente nesse planejamento e se precisar de ajuda o blog está aqui.
    Tenho certeza que vocês vão gostar.
    Abraço

  3. Arlinda Silva disse:

    Adorei as informações !!! foram muito úteis, estou indo em setembro/2013 e pretendo fazer esse passeio. Pena que não dá para tomar o banho ah.ah.ah…. obrigada e um abraço, Arlinda

  4. Arnóbio Neto disse:

    Olá, Arlinda
    Vale a pena esse passeio. Bath é uma cidade muito bonita.
    Abraço e boa viagem

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